"A Cidade Genérica" 26 anos depois
Como grande parte dos acontecimentos são resultado da terceira lei de Newton - o princípio da ação-reação - hoje notamos uma resposta clara, no sentido inverso, à sociedade Genérica do início do milénio.
O contexto social mudou drasticamente desde a década de 90: o deslumbramento pela globalização desapareceu, dando lugar ao medo e ao cinismo; a queda das torres gémeas, a 11 de setembro de 2001, fez com que a segurança e as fronteiras de cada país se reforçassem mais que nunca; aumentou o preconceito entre ocidente-oriente; existe uma maior consciência das consequências sociais negativas do sistema capitalista e dos seus modos de atuação; a crise ambiental e a sustentabilidade do planeta terra questionam o lucro enquanto finalidade absoluta; a crise pandémica do covid-19 demonstrou a necessidade de cooperação entre as variadas formas de poder e governação mundiais, em benefício da saúde pública; desenvolveu-se um maior sentido de comunidade e preocupação social; o espírito coletivo é de desgaste social, descontentamento e de resignação, contrastando, assim, com o espírito de euforia e entusiasmo do início do milénio; os nacionalismos radicalistas e antidemocráticos ressurgem no panorama político, alimentando-se deste mesmo espírito coletivo negativo;
A questão fundamental é: como é que todo este contexto se refletiu - e reflete - nas cidades?

(Ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, 11 de setembro de 2001, Manhattan, Estados Unidos - uma fotografia que captura o exato momento da mudança de paradigma social: o solo americano - a maior representação do capitalismo e da globalização - nunca pareceu tão inseguro e ameaçado como nesse dia)
Nos dias de hoje, existe uma grande preocupação que influencia a forma como entendemos e atuamos na cidade, resultante desta mudança de paradigma social: a preocupação em devolver a cidade às pessoas. A cidade é das pessoas; para as pessoas.

(Memorial do 11 de setembro, Manhattan Estados Unidos - o plano optou por deixar um vazio no lugar das torres gémeas, representando assim a marca do vazio deixado na sociedade, e transformou todo o espaço numa grande praça pública preenchida por árvores e espaços verdes, que representa a maior preocupação pela comunidade e pelo ambiente, em detrimento da economia de mercado e do lucro enquanto finalidade absoluta)
A meu ver, as atuais pretensões da arquitetura assentam num sentido de dever moral para com a comunidade. A arquitetura é hoje entendida enquanto forma de ação ou resposta no que concerne ao restabelecimento de certas condições em favor da sociedade.
Estas ambições e responsabilidades da arquitetura resultam na atual criação de mais espaços públicos e verdes nas cidades, que devolvem às pessoas o espaço anteriormente ocupado pelas estradas, pelos enormes centros comerciais e os seus parques de estacionamento (elementos daquilo que Rem Koolhas chamou de Cidade Genérica e Junkspace). Notamos, claramente, um conjunto geral de intervenções no sentido da facilidade de percorrer a pé a cidade: a criação de grandes áreas pedonais, a proibição de circulação automóvel, o aumento da largura dos passeios, a criação de passadeiras, a reabilitação de espaços públicos em decadência, etc.
Neste contexto, o tipo de arquitetura municipal e comunitária está a ganhar cada vez mais importância no planeamento de uma cidade, enquanto que a fama dos starchitects (arquitetos-estrela) só piora. Se, há uns anos atrás, Koolhaas representava o sonho de um arquiteto global e mediático, a surfar nas ondas do capitalismo enquanto que construía edifícios alvo de enorme cobertura mediática, nos últimos anos, tem sido encarado como um arquiteto que colabora, sem postura crítica ou sentido social, com regimes que colocam constantemente em causa os direitos humanos e cuja única preocupação é o poder político e económico. No sentido inverso, o arquiteto municipal volta a ganhar uma importância social e um sentido comunitário que se haviam perdido no início do milénio.
O centro histórico parece ser, cada vez mais, uma prioridade intocável, o que reflete a nossa preocupação com a História e a nossa herança identitária. A disrupção é - ainda mais - mal vista por uma sociedade que anseia por estabilidade e segurança. Contudo, não devemos ignorar que esta alteração de paradigma favorável às pessoas è também uma destabilização do estabelecido e, portanto, gera muitas críticas e descontentamento. Por exemplo, a restrição do acesso automóvel é recebida pelas pessoas como uma medida prejudicial, quando, na verdade, trata-se de melhorar, efetivamente, a cidade.
Afinal, a cidade do futuro kollhaasiana já não parece tão entusiasmante - nem, sequer, eficaz - como no virar do milénio. Koolhaas caracterizou a Cidade Genérica como uma cidade constantemente moderna e em frequente atualização; que nunca ia cair em desuso pela sua capacidade de abandonar o passado e de responder ao presente e futuro. A Cidade Genérica, que dá prioridade ao carro e às estradas; aos edifícios cuja escala ignora o ser humano; à iniciativa privada; etc., é hoje uma imagem desgastada e ultrapassada. Aliás, não só é um modelo desatualizado, como também é um modelo que nós, sociedade, reprovamos moralmente.
O próprio Rem Koolhaas demonstrou já ter abandonado a Cidade Genérica e fez, inclusivamente, mea culpa ao admitir que contribuiu para a sobrevalorização da cidade. Hoje, o seu foco está claramente direcionado para o campo e para o facto de este constituir, atualmente, um potencial de vanguarda maior - ou até, mais entusiasmante - que a cidade. O campo tornou-se mais futurista que a própria cidade (outrora, o símbolo da vanguarda e inovação). A própria sociedade já reflete esta mudança de paradigma: a crise pandémica foi uma espécie de machadada final na reputação da cidade, que já vinha sido afetada pela crise da sustentabilidade ambiental. Na atualidade, as pessoas e as suas famílias preferem viver nas proximidades das cidades, numa casa com espaço de quintal, onde podem cultivar alimentos para consumo próprio e respirar ar puro; sem se afastarem demasiado das oportunidades e serviços da cidade.
Por sua vez, as cidades ambicionam ser smart cities (cidades inteligentes), isto é, cidades que aproveitam ao máximo os recursos tecnológicos, de modo a desenvolverem estruturas e sistemas sustentáveis e favoráveis ao ambiente. A rapidez e a eficiência de performance são o que definem estas smart cities, que pretendem aliar a restruturação ambiental à restruturação financeira.
No meu entendimento, a conclusão a ser retirada é o facto de a Cidade Genérica se ter apresentado como um modelo inesgotável e intemporal, algo que o tempo provou não ser verdade. Como todos os paradigmas que pertencem à História, acabou por se desenquadrar das necessidades e preocupações da sociedade. Este tipo de arquitetura, enquanto representação material dos valores, ideais e ambições da sociedade, deixou de fazer sentido para nós (o que não quer dizer que não tenha feito no início dos anos 2000). Contudo, existem ilações que devem ser retiradas e questões que devem ser alvo de reflexão, nomeadamente, a gestão do património cultural e histórico; questões relacionadas com a identidade da cidade e a sua capacidade de inovar e se adaptar às atuais - e futuras - ambições e necessidades da sociedade; até que ponto a cidade pode ser planeada e controlada; a importância do espaço público; a legitimidade e os limites da iniciativa privada.
É nesta perspetiva que considero o manifesto "A Cidade Genérica" como uma teoria indispensável da arquitetura, mas que, como todas as outras, é limitada à sua época e contexto social.



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