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O espaço do livro

2 de jun. de 2022
2 min de leitura


"Para nós, o livro é um pequeno edifício." - Alison Smithson



Desde Andrea Palladio no século XVI, a Le Corbusier no século XX, ou ainda, Rem Koolhaas na contemporaneidade, que a escrita e a publicação impressa desempenham um papel fundamental para a prática arquitetónica. Devido às necessidades da disciplina em refletir e divulgar, as publicações impressas constituíram - e ainda constituem - uma ferramenta muito útil pra os arquitetos e a sua prática.

Contudo, a exploração da dimensão tridimensional e material do livro potencia este como um meio, não só de representação e divulgação, como também de produção. Deste modo, assume-se, simultaneamente, como ferramenta, processo e produto final. Uma vez entendido para lá do que é convencional, o livro torna-se, ele próprio, numa forma de pensar, produzir e representar arquitetura.

Determinadas publicações (tal como a monografia de Rem Koolhaas S,M,L,XL) foram capazes de criar efetivamente narrativas complexas e revolucionárias para a disciplina da arquitetura. Nestes casos, o conteúdo arquitetónico não é gerado apenas pelo significado das palavras, pelos desenhos ou imagens: é também gerado pela própria dimensão do livro, as suas cores e texturas, a sua organização, a disposição espacial dos textos e das imagens nas páginas, o tipo e tamanho de letra, a sua estrutura e sequência, o título, etc. Através da aglomeração de todos estes aspetos, torna-se possível construir uma ideia de arquitetura que transcende a representação convencional (normalmente, constituída por desenhos de arquitetura ou fotografias de projetos, acompanhados de pequenos textos explicativos, que servem para divulgar e validar uma determinada prática).

Estamos, essencialmente, perante duas formas de relacionar o conteúdo e a página: uma que entende a página em branco como uma superfície bidimensional neutra, onde simplesmente é aplicada tinta; outra que encara a página em branco como espaço vazio, provido de potencial a ser explorado através da sua materialidade. Isto é, em vez de uma página constituir apenas uma superfície onde são fixadas representações de conteúdo, a página é, em si mesma, uma representação espacial de conteúdo.

KOOLHAAS, Rem; MAU, Bruce (1995) - S, M, L, XL – The Monacelli Press



Neste caso em especifico, as 1400 páginas da monografia S,M,L,XL e os seus 3kgs materializam, desde logo, a complexidade e a intensidade de uma profissão que Koolhaas caracterizou como uma "aventura caótica" movida pela arbitrariedade, incoerência e contradição.

O título "S,M,L,XL" corresponde diretamente à escala dos projetos do atelier OMA, sendo que esta é a única estrutura estável e identificável, tanto no livro, como na própria prática do atelier. Segundo Koolhaas, o livro pode ser lido de qualquer maneira: as páginas podem ser escolhidas de forma completamente aleatória, dado que a monografia constitui uma espécie de colagem - de vários desenhos, textos, fotografias, notas de diários, etc. - que, no seu todo, constrói um panorama geral da arquitetura do virar do milénio.


Quer isto dizer que os livros são efetivamente arquitetura? Não. Tal como os edifícios - enquanto objetos construídos da realidade material - também não o são. Ainda que inegavelmente distintos, ambos podem constituir formas de produzir arquitetura.

 
 
 

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