Sonhar com a hesitação
O arquiteto é um otimista incurável. A partir do momento em que pensa e projeta, o arquiteto parte, por defeito, da convicção de que a sua intervenção resultará numa melhoria, por mais pequena e circunstancial que esta seja. Por muito pessimista que se afirme, acredita na possibilidade de melhorar a vida das pessoas através dos espaços que estas habitam diariamente.
A verdade é que nós, seres humanos, vivemos submersos no nosso quotidiano: andamos numa correria total pela cidade e passamos grande parte das nossas horas fechados dentro de um edifício, mas, apesar de tudo isto, raros são os momentos em que paramos para observar e pensar. Quantas vezes não "descobrimos" edifícios e espaços que já tínhamos frequentado ou passado por eles inúmeras vezes, simplesmente porque, naquele preciso momento, paramos efetivamente?

(Residência Zhu'an, zhaoyang architects, China 2016 )
O arquiteto acredita - numa linha muito ténue entre a ambição e uma ingenuidade infantil, diria - que a arquitetura tem o potencial de fazer uma pessoa parar durante um breve momento e refletir. Acredita naquilo que Mark Wigley denominou de "momento de hesitação, tal como a poesia": a poesia é uma escrita peculiar, com regras e organização próprias, cuja particularidade é o modo como a mensagem atinge o leitor. Uma mesma mensagem pode ser transmitida pela prosa e pela poesia, contudo, quando é transmitida através da poesia, assume de imediato uma dimensão reflexiva, pois tem a capacidade de fazer a pessoa hesitar, parar e pensar. E não é isto aplicável à arquitetura? Não poderemos entender o arquiteto como um autor que procura criar e organizar espaços e formas, de modo a resultar em potenciais momentos de hesitação no nosso quotidiano? Não poderemos entender a arquitetura como uma exceção poética que interrompe, pontualmente, a prosa do nosso quotidiano?
Portanto, o arquiteto baseia a maior e a mais improvável das ambições no mais pequeno e "insignificante" detalhe: sonha com a capacidade de um pequeno momento, proporcionado por um mero edifício, fazer com que uma pessoa pare por uns segundos. E, segundo Wigley, estes segundos podem ser usados para pensar sobre arquitetura; e depois, quem sabe, sobre a sociedade; e, com sorte, ao mudar a forma de ver o mundo, esse pequeno detalhe consiga também provocar uma mudança na forma de viver. Pessoalmente, acredito na capacidade dos edifícios em fazer a sociedade parar para pensar. De facto, a sociedade pode refletir sobre si mesma através dos edifícios que constrói. Quanto à possibilidade de a arquitetura mudar o mundo e as formas de viver da sociedade, já não acredito tanto assim...



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