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O Arquiteto

17 de fev. de 2022
3 min de leitura

Atualizado: 17 de mar. de 2022

(Peter Zumthor e uma maquete do seu projeto do Mine Museum construído na Noruega)



O arquiteto, uma figura da civilização cujas primeiras referências remontam ao século XI AC. na Grécia Antiga. surge na história como o "mestre da construção": aquele que domina todo o processo de construção de um edifício. Era um entendido das técnicas construtivas, das fases das obras, dos materiais aplicados, etc.

Se até ao século XIV existia apenas o mestre da construção, depois do Renascimento esta figura assume-se também como um artista e é finalmente reconhecido enquanto "arquiteto". Torna-se responsável por aplicar criatividade e ideias artísticas nos seus projetos e nas respetivas construções. Ao separar estas duas fases - o design e a construção - começa a surgir a distinção entre o arquiteto e o mestre de obras, respetivamente.

No século XIX, o papel do arquiteto sofre novas alterações: os avanços tecnológicos provenientes da Revolução Industrial fizeram com que o arquiteto deixasse de conseguir dominar o edifício na sua totalidade. A introdução de novas possibilidades como estruturas metálicas, vidro, canalizações, luz elétrica, elevadores, ventilação e aquecimento, conduziram à especialização dos variados processos técnicos e tecnológicos que envolvem a construção de um edifício. Devido à dificuldade inicial em conjugar a responsabilidade e o saber de uma só pessoa com as novas exigências ligadas a um edifício, surge a colaboração entre o arquiteto e outros profissionais.

Como consequência deste novo paradigma, dá-se uma alteração que mudou permanentemente a arquitetura e o papel do arquiteto: a separação definitiva entre projeto e construção. Neste contexto, os arquitetos, juntamente com muitos outros profissionais, passam a elaborar um projeto com o intuito de o comunicar, através do desenho, a alguém responsável pela construção da obra.

Este é um ponto de viragem da arquitetura. O arquiteto que nós conhecemos atualmente tem 200 anos de existência, numa profissão com cerca de 3000 anos de história.

As mudanças sociais e tecnológicas ditaram uma nova realidade à qual o arquiteto teve obrigatoriamente de se adaptar. Hoje em dia, é mais um profissional, no meio de uma equipa que pode ir de 10 a 100, que gere e intervém num projeto de arquitetura que, por sua vez, é entregue a alguém que o vai executar posteriormente em obra.

Perante estas circunstâncias, torna-se evidente a perda de influência, intervenção e domínio que a figura do arquiteto sofreu com o passar do tempo. Contudo, este facto não deve ser encarado como algo negativo, mas antes como algo que simplesmente tinha de acontecer, dado que a sociedade exigiu edifícios cuja complexidade acompanhou o aumento significativo da qualidade de vida. Nos dias de hoje, é absolutamente impraticável uma só pessoa ficar encarregue de todas as componentes, fases e processos implicados na construção de um edifício.

De repente, o arquiteto - um generalista na era da especialização... - vê-se no centro de uma equipa constituída por especialistas mais competentes que ele em todas as componentes práticas e construtivas dos edifícios. Fica numa posição, frágil e constrangedora. em que percebe que não são efetivamente necessárias a sua presença e intervenção para a construção de edifícios.

Mas, é precisamente nesta inusitada posição que, a meu ver, se revela uma oportunidade para o verdadeiro propósito da arquitetura: nós, sociedade, não queremos que os nossos edifícios sejam apenas construídos e que funcionem; queremos uma arquitetura que vá para além da construção física e material: queremos que os edifícios sejam a nossa expressão construída; queremos, no fundo, rever-nos neles.

Esta dimensão imaterial dos edifícios é precisamente aquilo que o arquiteto tem de garantir. Isto é, no meio de tantos especialistas e outras tantas tecnologias, de cálculos e regulamentos, de restrições orçamentais e exigências do cliente (todos eles fundamentais e incontornáveis), a arquitetura está precisamente na transcendência do real e material.

É nesta missão de transcendência do material e mundano que considero que o arquiteto deve encontrar o seu espaço de contributo para com a sociedade. No entanto, isto não implica, de forma alguma, um distanciamento da dimensão física da arquitetura. Aliás, é precisamente através da materialidade e da presença física do edifício que a arquitetura é capaz de alcançar essa mesma transcendência. Recordemos, por exemplo, a arquitetura de Peter Zumthor: realista e sensorial, focada na presença física do edifício nu lugar e nos seus respetivos materiais, mas que, ainda assim, procura atingir uma dimensão transcendente - aquilo que Zumthor denomina de "atmosfera".








 
 
 

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