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"A Cidade Genérica" 26 anos depois - O Peso da Identidade

20 de nov. de 2021
5 min de leitura

Rem Koolhaas, na sua monografia S,M,L,XL, de 1995, publica o manifesto sobre um novo tipo emergente de cidade: "A Cidade Genérica".

Este manifesto retrata a cidade do futuro (da perspetiva da década de 90): uma cidade sem história, nem identidade própria; que é fácil e superficial; que é independente.

Ao contrário das cidades anteriores, a Cidade Genérica rejeita a convergência ao centro urbano e oferece "momentos individuais afastados". Numa clara oposição ao "colete de forças" que o centro urbano e histórico representa para a evolução e inovação de uma cidade, Koolhaas teoriza um tipo de cidade que, uma vez livre do fardo da identidade e da herança histórica, consegue representar o presente da sociedade, as suas necessidades e exigências.

Tal como a mistura de todas as cores dá origem ao branco, a convergência de todas as culturas dá origem a um branco identitário - o genérico - que, segundo Koolhaas, traz vantagens e possibilita condições que devem ser exploradas.



I. O Peso da Identidade


"E se estamos a testemunhar um movimento de liberação global: "Abaixo o caráter!" O que resta após a identidade ser removida? O Genérico?" - Rem Koolhaas


(fotografia do centro histórico da cidade de Paris e, separada pelo Rio Sena, a uma distância considerável, Paris moderna)



Estabelecendo uma relação direta entre a condição urbana e a sua história, identidade e caráter, Koolhaas afirma que o crescimento exponencial da população irá, inevitavelmente, evidenciar que "o passado é demasiado pequeno para para ser habitado e partilhado por aqueles que vivem hoje em dia".

No entendimento do arquiteto holandês, quanto mais forte for a identidade, mais limitativa e prejudicial ela se torna para a inovação e desenvolvimento de uma cidade: "Paris só pode ser cada vez mais Parisiense - está já a caminho de se tornar hiper-Paris, uma sofisticada caricatura". Paris é uma cidade tão grandiosa que já não pode dar-se ao luxo de ser outra coisa qualquer a não ser Paris - a mais bela cidade do mundo. (Não se torna, aqui, inevitável analisar a situação de Paris e projetar o futuro da cidade Porto..?)

A identidade da cidade é central: é um núcleo cujo raio de influência se expande em circunferências cada vez maiores (o desenvolvimento de uma cidade dá-se através de sucessivos raios de influência concêntricos que se vão expandindo para lá do centro urbano e histórico). Perante esta evidência, Koolhaas apresenta um raciocínio lógico: se a cidade tem um núcleo, e o seu desenvolvimento vai-se dando através de circunferências cada vez maiores, a distância entre o centro e o limite da cidade aumentará ao ponto de se dar uma rutura (como se tratasse de uma corda que, presa ao centro, é esticada e esticada até romper). Com este distanciamento cada vez maior, a identidade e o caráter da cidade vão, naturalmente, diluindo e enfraquecendo, resultando naquilo a que chamamos de periferia.

A periferia, que a certa altura mereceu atenção por constituir um fenómeno que abria novas possibilidades de inovação e experimentação de novas condições urbanas, é, na verdade, uma "falsa inovação" ideológica: na sua essência, a periferia pressupõe a existência de um centro com valor e significado que, em última instância, reduz a periferia a um segundo plano. Neste sentido, a periferia não é mais que um resultado do centro e da identidade da cidade, quando estes últimos já se encontram num estado terminal de exaustão e esgotamento.

Segundo Koolhaas, a dependência do centro é duplamente prejudicial: (1) com o crescimento exponencial das cidades, a influência do núcleo vai, inevitavelmente, atingir o ponto de rutura; (2) é esperado que o centro desempenhe um papel impossível: tem de ser constantemente preservado e modernizado ao mesmo tempo, pois, pelo facto de constituir o ponto mais importante da cidade, tem de se assumir, simultaneamente, como o local mais fiel possível ao passado e à identidade, e o local mais propício à inovação e criação de novos paradigmas.

Por esta última razão, testemunhamos uma crescente obsessão - um verdadeiro fetichismo, diria - em manter as fachadas dos edifícios históricos tal como eram no passado, efetuando alterações apenas no interior do edifício (como se tratasse de um cenário em cartão de uma peça de teatro, que esconde o que se passa nos seus bastidores). Isto é, de modo a manter a ilusão do caráter e da identidade urbana, a arquitetura vê-se obrigada a preservar as fachadas dos edifícios, falhando em perceber o paradoxo de que a conservação e renovação são um ataque direto à autenticidade e à integridade que se quer recriar. A cada renovação que se vai fazendo, mais o caráter original se vai desvanecendo, ao ponto de já não passar de uma réplica de uma réplica, e assim sucessivamente... "Como o ator Morgan Freeman afirmou uma vez: "As coisas são melhores ou piores à segunda vez? Podemos realmente fazer alguma coisa mais do que uma vez?"

A meu ver, apesar de disruptiva, e um tanto extremista, esta perspetiva de Koolhaas é absolutamente necessária (imaginar cenários futuros nos extremos das suas consequências é uma ótima maneira de colocarmos as questões certas e adequadas para o presente). É uma questão de tempo até chegarmos à conclusão coletiva de que teremos de efetuar escolhas quanto aos edifícios e a sua adequabilidade para com as necessidades presentes da sociedade. Assim como existe - e muito bem - bom senso na atitude de avaliar primeiramente se é realmente necessário demolir e construir de novo, também deve existir a honestidade (ou talvez, a coragem?) de nos livrarmos daquilo que não serve mais ou que não nos interessa.

Para além disso, a questão da preservação é, normalmente, colocada uns anos após a construção de um edifício mas, e se essa questão fosse equacionada aquando a própria conceção do edifício? Parece-me evidente que, com a atual densidade de construção, vamos ter que optar por construir edifícios "temporários". Isto é, edifícios que sabemos que, por exemplo, daqui a 50 anos terão que ser demolidos e substituídos por outros novos mais adequados. Por outro lado, também me parece ser um erro preservar o passado acriticamente: se não questionarmos a História, teremos, obrigatoriamente, que demolir apenas edifícios atuais, o que seria um enorme erro pois entendo que devemos sempre deixar algum tipo de representação material do modo de viver da sociedade de cada época (mesmo que se opte por manter apenas a ruína, tal como o Parténon de Atenas)

Apesar de entender que a identidade, o caráter e o passado da cidade, são muito importantes - mesmo no que concerne a sua própria inovação -, parece-me evidente que, enquanto sociedade, temos a obrigação de colocar em causa a atitude excessivamente protetora e acrítica para com o passado e o património. Devemo-nos questionar:


-O que vale a pena preservar?

-O que vale a pena conservar? (sim, são duas coisas completamente distintas: conservar é manter o estado atual; preservar implica manutenção e renovação)

-Segundo que critérios o fazemos?

-Somos capazes de olhar para o passado livres da nostalgia e da vergonha da mudança?

-Temos coragem em abandonar aquilo que já não nos serve mais e deixou de ter significado?

-Somos capazes de determinar o que tem valor para nós?

-Poderemos viver com a responsabilidade de "optar por (...) em detrimento de (...)"?

-Estamos preparados para assumir tamanha responsabilidade?

-Não estaremos a adiar uma situação inevitável?






 
 
 

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