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"A Cidade Genérica" 26 anos depois - Última paragem: o Genérico?

25 de nov. de 2021
4 min de leitura

"É "superficial"- tal como um estúdio de Hollywood, é capaz de produzir uma nova identidade todas as manhãs de segunda-feira." - Rem Koolhaas


A Cidade Genérica não é propriamente um conceito que Rem Koolhaas tenha imaginado de raíz, mas antes uma teorização de algo que já se vinha a manifestar em algumas partes do mundo, principalmente no continente da Ásia, apesar de, mais tarde, também se alastrar a nível global

Na década de 90, as evidências apontavam todas para uma direção: a transição da identidade e do específico para o genérico e global.

A primeira razão - e a mais óbvia delas todas - foi o crescimento exponencial da população de países asiáticos como a China ou Singapura. Segundo Koolhaas, "Alguns continentes, como a Ásia, ambicionam a Cidade Genérica; os outros sentem-se embaraçados." Era, de facto, impossível para a arquitetura e para o urbanismo acompanharem, através do design, as exigências do elevado ritmo de crescimento populacional. Neste contexto, surge então uma condição urbana que reflete, de forma aberta e direta, as necessidades emergentes da sociedade do novo milénio.


(Evolução da densidade urbana dos anos 90 até aos dias de hoje, nas cidades do Dubai, Londres e Shanghai)


Apesar de a Cidade Genérica ter nascido a partir de um inconsciente coletivo, Koolhaas coloca a hipótese do abandono da identidade, em favor do genérico, ser um ato absolutamente deliberado: após o triunfo do capitalismo e da economia de mercado, e as ambições da globalização, a última paragem - e desejo - da sociedade seria o "Genérico".

A sociedade viveu nos anos 90 uma homogeneização clara: o domínio à escala mundial da economia de mercado e do capitalismo; a invasão do setor privado no domínio público; a globalização e a eliminação de fronteiras; a utilização generalizada da Internet; todos estes fatores - e outros tantos que não mencionei - anteviam uma sociedade global. Neste sentido, podemos afirmar que a evolução da sociedade passava, de certa forma, pelo abandono da identidade enquanto valor de distinção, dado que estávamos mais focados em unir, convergir e condensar, do que em separar, divergir e dispersar.

Perante este contexto, Koolhaas questionava as alterações que as cidades, e a arquitetura na sua generalidade, poderiam sofrer: "Irão as cidades ser como os aeroportos: todas iguais?"


(Uma colagem de fotografias de edifícios espalhados por todo o mundo que revelam a intenção de abandonar os estilos arquitetónicos, em favor de um só estilo global - o Genérico)



Enquanto os mais conservadores criticavam ou, simplesmente, ignoravam as cidades contemporâneas, Koolhaas entendia que "em cada disfuncionalidade existe a oportunidade de uma nova funcionalidade". No entendimento do arquiteto, a Cidade Genérica acabaria por destruir dois domínios: a sociologia e o urbanismo. A sociologia porque a diversidade e a multiplicidade culturais são de tal ordem diversas e complexas que são inclassificáveis (é precisamente essa a mais-valia desta nova condição urbana); o urbanismo porque é incapaz de compreender ou controlar este novo sistema indecifrável de dinâmica e oportunidades. A cidade já não é mais um plano ou esforço coletivo, mas sim um aglomerado de iniciativas privadas essencialmente independentes e, por isso mesmo, impossíveis de orquestrar.

Dado que o manifesto consiste numa descrição muito direta e clara deste tipo de cidade, limito-me a transcrever as seguintes passagens:


"O arrependimento pela ausência da história é um reflexo enfadonho. Expõe um consenso implícito de que a presença da história é desejável. Mas, quem disse que era o caso? A cidade é um plano habitado por pessoas e processos, o mais eficientemente possível e, na maioria dos casos, a presença da História apenas impede a sua performance... A História impede, atualmente, a exploração pura do seu valor teórico como ausência."


"A rua está morta. Essa descoberta coincidiu com as tentativas frenéticas da sua ressuscitação."


"As ruas são apenas para os carros. As pessoas (pedestres) são transportados por boleias (como num parque de diversões), em caminhadas que as elevam do solo (...)"


"A grande inovação da Cidade Genérica é simplesmente o abandono daquilo que não funciona - o que já ultrapassou a sua utilidade - de modo a partir o alcatrão do idealismo com os martelos pneumáticos do realismo e a aceitar toda e qualquer coisa que cresça no seu lugar"


"A Cidade Genérica está a transitar da horizontalidade para a verticalidade. O arranha-céus parece ser a tipologia final e definitiva. Engoliu tudo o resto. Pode existir em qualquer lugar: num campo de arroz ou no centro - já não faz diferença."


"A Cidade Genérica é sustentada, não por um domínio público excessivamente exigente, (...) mas pelo residual."


"A melhor definição da estética da Cidade Genérica é o estilo livre. Como o podemos descrever? (...)"


"A Cidade Genérica representa a morte definitiva do planeamento. Porquê? Não porque não é planeada (...), mas porque a descoberta mais perigosa - e estimulante - é o facto do planeamento não fazer diferença de modo algum."


"Os escritórios continuam a existir, em maior quantidade, de facto. As pessoas afirmam que não vão ser mais necessários. Dentro de 5-10 anos vamos todos trabalhar a partir de casa. Mas aí precisaremos de casa maiores, o suficiente para poderem ser feitas as reuniões. Os escritórios vão ter de ser convertidos em casas."

 
 
 

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