A condição crítica da arquitetura
A relação entre a crítica e a prática da arquitetura é uma questão que vem sido muito discutida e que se torna mais pertinente a cada ano que passa.
Vivemos numa era em que os meios tecnológicos abrem inúmeras possibilidades à produção de uma crítica estruturada, comprometida e descentralizada. Nos dias de hoje, um blog pode ter tanto ou mais alcance e poder mediático que uma revista, algo que há uns anos atrás era difícil de imaginar. Com este free-pass, quer para a produção de crítica, quer para o seu acesso, estão reunidas condições para combater a tendência de uma crítica centralizada e elitista.
Outro fator a ser considerado é relativo à formação académica dos arquitetos. Para além da quantidade crescente de arquitetos formados, existe também o problema da especialização (que se estende por toda a sociedade) e que afasta cada vez mais os "arquitetos de atelier" e os "arquitetos da teoria"; os arquitetos que exercem e os professores de arquitetura; os arquitetos que fazem arquitetura e os arquitetos que pensam arquitetura (como se não fossem a mesma coisa…)

(Frank Gehry, Jean Nouvel e Rem Koolhaas, sentados a beber, possivelmente, champagne enquanto que discutem de forma visivelmente despreocupada)
Ao contrário de outros tipos de atividade que são alvo de produção de crítica, a crítica da arquitetura é, em grande parte, feita por arquitetos. Ou seja, é feita por alguém que integra a própria área que se está a criticar. No fundo, a crítica de arquitetura é feita por arquitetos, sobre obras de arquitetura cujos autores são eles mesmos ou outros arquitetos. Consequentemente, qualquer tipo de crítica que se afirma como imparcial, distante ou acima de qualquer tipo de envolvimento, não existe efetivamente.
Neste contexto, as obras de arquitetura facilmente se tornam em meros instrumentos de auto-legitimação, pois servem para validar as convicções pessoais do crítico ou, no sentido inverso, o discurso crítico transforma-se num mero instrumento de legitimação de uma prática.
"Mas porque razão é necessária a produção de crítica..? A quem se dirige? Ao arquiteto? Ao público geral? Serve para o arquiteto saber a validade dos seus projetos? Serve para aproximar o público geral das intenções do arquiteto? Serve para reivindicar a importância da arquitetura para a sociedade?" Todas estas questões são questões que devem continuar a ser colocadas.
A meu ver, todo o arquiteto é, por defeito, um crítico. Não existe tal coisa como um arquiteto acrítico. Desde o momento em que observa uma porção de território, em que lhe identifica as lógicas e opta por lhes dar continuidade, ou por interromper, o arquiteto adota uma posição crítica, simplesmente porque a sua tomada de posição e a escolha de uma estratégia em detrimento de muitas outras são, por si só, atos profundamente críticos.
Considero que a arquitetura não é apenas uma construção física e material; é também uma construção crítica e intelectual. Até mesmo aqueles arquitetos que afirmam praticar uma arquitetura pragmática e realista, essencialmente ligada à dimensão técnica e construtiva, fazem projetos de arquitetura. E o que é o projeto de arquitetura senão uma especulação teórica - ainda que altamente fundada na realidade - de um conjunto de intenções e estratégias sobre algo que ainda não existe no mundo material?
Mesmo os desenhos de arquitetura, que são feitos para a elaboração e execução do projeto, - as plantas e os cortes - são também abstrações bastante distantes da realidade inerente à experiência dos edifícios e dos espaços. Afinal, quando é que conseguimos ver a planta de um edifício que frequentamos, para além do desenho? Conseguimos fazê-lo no nosso dia a dia? E um corte? A verdade é que para "ver" esses desenhos na realidade, teríamos de cortar - literalmente - os edifícios às fatias.
O que pretendo transmitir é que, tudo o que é real e pragmático na arquitetura, reside também numa dimensão de construções teóricas.
O que pode acontecer, de facto, é o arquiteto não reconhecer ou valorizar o conteúdo teórico dos seus projetos (e é totalmente legítimo fazê-lo). Mas, mesmo assim, pode surgir alguém, como um crítico profissional, que pode construir discursos a partir da reflexão sobre as ideias materializadas pelo arquiteto.
Se, por um lado, acredito que não existe prática sem teoria, por outro, a crítica e a teoria sustentam, necessariamente, a sua existência numa prática. Sem uma prática, a crítica é um exercício vazio, de especulação infundada e inconsequente. A arquitetura tem a obrigação de construir estruturas e edifícios que suportem determinadas exigências humanas e o projeto de arquitetura é a base a partir da qual se extraem todas as temáticas e problemas, desde o campo da construção ao da cultura.
Para além da inevitável condição construtiva e funcional, os edifícios são providos de conteúdo social, pois, através deles, podemos perceber a estrutura de uma sociedade. É dentro desta perspetiva que considero essencial o arquiteto adotar, também, uma postura crítica de antropólogo, sociólogo ou até mesmo político. O arquiteto tem de ter consciência de que os edifícios que produz influenciam efetivamente a sociedade e, portanto, tem de o fazer a partir de uma posição esclarecida. responsável e crítica. Neste sentido, torna-se fundamental produzir e extrair o conteúdo social da arquitetura e dos seus edifícios. Ou seja, não só é fundamental o arquiteto fazer uso da crítica para produzir - nos edifícios - conteúdo que se adequa ao paradigma social, como também é necessária a extração - teórica - desse mesmo conteúdo, quer esta seja efetuada pelo próprio arquiteto ou por outra figura externa.
A mim interessa-me um tipo de crítica pessoal; um tipo de crítica efetuada pelo próprio arquiteto, que alimente uma prática e que seja, também ela, alimentada por essa mesma prática. Neste contexto, nada implica que a crítica efetuada a partir do exterior, por um crítico profissional, perca a sua relevância. Pelo contrário, esta pode ajudar na formulação e estabelecimento de ideias e visões da disciplina, acabando por se tornar, ela própria, uma ferramenta da crítica pessoal do arquiteto. Não vejo porque razão devam existir duas dimensões distintas: a da prática e a da crítica da arquitetura; a do desenho e a da escrita. Porque não a existência de uma única dimensão? A da prática crítica ou da crítica prática? Ou, simplesmente, arquitetura..?
Apesar de este ser um tipo de crítica que é, de certo modo, individualista, defendo que este tipo de postura deve ser colocado em prática num contexto coletivo. Isto é, entendo que os próprios arquitetos devem tomar iniciativas que promovam a realização de debates e discussões entre eles, que envolvam o confronto de ideias e perspetivas diferentes. Em vez de caírem na tentação de produzirem crítica que valide a sua própria prática e vice-versa, os arquitetos devem sair da zona de conforto e arriscar a validade das suas ideias e conceitos num contexto de confronto com outras ideias.
No fundo, é neste contexto que escrevo estas reflexões: o meu objetivo é desenvolver um espírito crítico que seja capaz de produzir arquitetura. Escrevo para que consiga praticar e pratico para que consiga escrever porque, apesar de distintos, são processos equivalentes na sua essência. Afinal de contas, ambos podem ser arquitetura.



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