Arquiteto: O Guionista da Realidade Social

(Casa da Música, Porto 2005 | OMA/Rem Koolhaas)
A um nível fenomenológico elementar, a experiência da arquitetura é algo que, tal como a narrativa, se define por uma sequência de eventos que acontecem num determinado espaço e num determinado tempo. Isto é, a sequência composta pelas formas do edifício e os eventos que nele acontecem, definem a experiência espacial desse mesmo edifício.
A discrepância que caracteriza a relação que existe entre: (1) o que são efetivamente os edifícios na sua existência estritamente física e estrutural; (2) a ideia que nós temos sobre o que são os edifícios; revela claramente que a arquitetura lida mais com as ideias e narrativas sobre edifícios e a sociedade, do que propriamente com a sua existência material.
Consideremos a estrutura de um edifício. Apesar de ser frequentemente associada às características opostas, a estrutura de um edifício está longe de ser algo absolutamente controlado e estabilizado. Pelo contrário, move-se e é instável: a estrutura sofre pressões e mexe-se constantemente, fazendo com que o betão das paredes fissure; a madeira que reveste os pisos dilata; a ligação entre o piso e as paredes é escondida pelo rodapé; o espaço entre paredes e lajes, ou os tetos falsos, ocultam redes e sistemas complexos de eletricidade, água e ar, etc.
Apesar destes factos, a ideia – ou se quisermos, a ilusão – de que uma divisão é algo estável, controlado e coeso, só é possível porque a arquitetura compõe uma divisão enquanto tal, como se tratasse de uma encenação. Nesta conformidade, a relação que existe entre a natureza estrutural e construtiva de um edifício e a ideia que temos desse mesmo edifício não é transparente. O que nós pensamos ser a essência dos edifícios e da respetiva experiência espacial, é, na verdade, uma narrativa - um conjunto de imagens e cenas criadas e sequencialmente dispostas pelo arquiteto, de forma intencional e, acima de tudo, crítica. No entanto, esta ilusão da narrativa não deve ser entendida num sentido enganador ou falacioso. Pelo contrário, a narrativa na arquitetura é uma estrutura simbólica que reflete a verdade, não sobre os edifícios em si, mas sobre nós mesmos.
Em termos práticos, quando um arquiteto opta, por exemplo, por colocar uma porta num determinado sítio, está implicitamente a organizar percursos dentro da divisão e a definir uma sequência de cenários que vão sendo experienciados pelas pessoas (para nos dirigirmos à porta, passamos ao lado de uma parede que tem uma determinada cor ou textura; no seguimento, surge uma grande janela que atrai a nossa atenção e que nos permite observar a paisagem exterior, etc.)
Outro exemplo seria o de uma cozinha aberta e contínua com a sala de estar. Neste caso, o arquiteto determina implicitamente a relação social entre as pessoas e os espaços, na medida em que, ao juntar os espaços da cozinha e da sala de estar, oferece a possibilidade à pessoa que está a cozinhar de conversar com os convidados, de servir um copo de vinho enquanto que estão sentados no sofá à espera que o jantar fique pronto, etc. Estaríamos perante um cenário social completamente distinto se a cozinha estivesse isolada numa outra divisão encerrada e completamente separada da sala.
Como estes exemplos comprovam, todas as decisões tomadas por um arquiteto – quer formais (relativas à forma, escala, materialidade, etc.), quer funcionais (relativas a questões práticas, como as necessidades do cliente, os usos dos espaços, as técnicas construtivas, etc.) – estruturam efetivamente a narrativa do edifício.
Neste sentido, tal como Rem Koolhaas afirmou[1], o arquiteto é o guionista da realidade social. O arquiteto, tal como o guionista, compõe narrativas, com a particularidade de o fazer através de edifícios e espaços, em vez de o fazer através das palavras.
A singularidade das narrativas da arquitetura reside, precisamente, no facto de as vivermos - no sentido literal da palavra - e, portanto, elas definem em termos práticos e efetivos a maneira como nos relacionamos com os espaços e, acima de tudo, uns com os outros. Neste sentido, o papel do arquiteto enquanto guionista do quotidiano e das relações entre as pessoas, é de uma inequívoca responsabilidade social. Responsabilidade essa que exige ao arquiteto uma preocupação intelectual e social apuradas: de modo a responder à realidade atual e apontar em direção a um futuro melhor, o arquiteto tem de ser capaz, não só de interpretar os ideais, ambições e necessidades de uma sociedade, como também de responder à realidade e aos problemas emergentes.
Alfred Hitchcock, o aclamado realizador de cinema, afirmou uma vez o seguinte: "Os filmes são, no fundo, a vida real sem as partes aborrecidas." Ora, seguindo esta lógica, atrevo-me a afirmar que a arquitetura é então a arte que trata todo o espectro da vida real - do extraordinário ao ordinário; da surpresa à rotina; do esporádico ao programado. E confesso que esta arquitetura me entusiasma: ambiciosa o suficiente para acreditar que pode tornar o mundo num lugar melhor (porque tem efetivamente capacidade para isso), ao mesmo tempo que é socialmente responsável e consciente da sua subserviência para com a sociedade; distraída a imaginar um futuro melhor na sua cabeça, enquanto que caminha com os pés bem assentes no presente.

(Maquete Casa da Música, Porto, imagem cedida por OMA © Hans Werlemann)
[1] Rem Koolhaas entrevista de Zumtobel 2015, acessível no Youtube



Não posso ignorar a palavra guionista. Emana uma supremacia e superioridade sobre os restantes "comuns mortais" que penso não fazer qualquer sentido, pelo menos na minha visão da arquitetura. Penso que o exame e a definição da arquitetura e do arquiteto merece uma aproximação mais holística, menos isolada e generalista. Afinal, o arquiteto não pode ser o único individuo responsável pela concretização do nosso espaço físico, o "cenário" para a vida de todos. Quem é o arquiteto e o que faz dele arquiteto? É a pessoa que tem um papel a comprovar que aguentou 5 anos numa escola de arquitetura? Sou eu? És tu? Somos nós que vamos ditar o toda a gente deve ou não deve, gosta ou não…