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Arquitetura: Arte ou Ciência Social?

3 de out. de 2021
4 min de leitura

Não obstante o facto de a relação entre a arquitetura de Siza Vieira e Eduardo Souto Moura ser muito próxima, existe uma discordância entre os dois: afinal, a arquitetura é uma arte ou não?

Siza Vieira acredita que sim: "Arquitetura é arte, e isso está no meu espírito desde sempre."

Souto Moura afirma que não: "Não. A arquitetura, penso que não é arte. Tem uma função própria, explícita, é uma encomenda. Portanto, não pode ser independente como a arte deve ser. A arte é ela própria, não deve nada a ninguém."

Curiosamente, durante a atribuição do prémio Pritzker 2011 a Eduardo Souto Moura, Barack Obama afirmou que a arquitetura "é uma arte em que nos podemos mover e viver dentro dela. E, no fundo, essa é a razão pela qual podemos considerar a arquitetura como a mais democrática forma de arte que existe."

A meu ver, a definição de arte (ou a classificação de alguma atividade enquanto arte) é regularmente alvo de generalização. Normalmente, nestes casos, a definição de arte está mais associada ao engenho ou a uma capacidade elevada de fazer uma determinada coisa. Quantas vezes não ouvimos, por exemplo, que "cortar bem a carne é uma arte!", ou que "devemos dominar a arte de falar em público"?

Por outro lado, obter uma definição de arte é uma tarefa praticamente impossível ou, até mesmo, contraproducente. Por si só, a arte é algo que vai testando e renovando, constantemente, os seus próprios limites, definições e modos de produção e, por isso mesmo, trata-se mais de uma questão em aberto, do que propriamente num domínio completamente estável.


Contudo, existe uma premissa que podemos considerar indispensável: o facto de, na arte, não existir a funcionalidade efetiva; de, no fundo, ser "arte pela arte". A finalidade da arte reside em si mesma.

No sentido inverso, a arquitetura, desde o primeiro momento, tem uma função clara e regras bem definidas. Desde logo, existe a obrigação de proteger e resguardar o ser humano do ambiente exterior e de suportar as atividades quotidianas da sociedade. Uma obra de arte pode, à partida, ser (praticamente) tudo. Uma obra de arquitetura não. Esta última, é limitada pelo cliente, terreno, regulamentos, orçamentos, contextos políticos, sistemas construtivos, etc. É através da relação e da conjugação entre todos estes elementos, de domínios completamente distintos, que se formam os limites do campo de possibilidades da prática arquitetónica.

Tal como Koolhaas afirmou, na introdução da sua publicação S,M,L,XL, a máquina da arquitetura depende de estímulos externos para funcionar. Estímulos estes, de natureza financeira (orçamento), cultural (programa), construtiva (técnicas construtivas), pessoal (intenções do cliente), morfológica (terreno), etc. Renzo Piano referiu, precisamente, esses estímulos para afirmar que "a arquitetura é uma arte vastamente contaminada por muitas outras coisas. Contaminada no melhor sentido da palavra - alimentada, fertilizada." (Como podemos ver, a questão pode cair sempre para os dois lados…)


(Casa Rietveld Schröder, Utrecht, Holanda 1924 | Gerrit Rietveld - a casa, do movimento De Stjil, que apresenta influências das pinturas de Piet Mondrian, do movimento do neoplasticismo)



Não obstante todas as contingências da arquitetura, são muitos os pontos de contacto entre a arte e a arquitetura.

Primeiramente, a um nível elementar, a arquitetura trabalha, projeta e constrói formas e, portanto, é através da forma que a arquitetura contribui para a sociedade. Também é sabido que a prática da arquitetura, aquando a fase de desenvolvimento do projeto, faz uso de ferramentas, meios e métodos artísticos, ligados ao design, a questões estéticas, modos de produção e representação do espaço, etc.

A arquitetura - tal como a arte - está profundamente ligada à necessidade intrínseca do ser humano em comunicar e expressar-se. A arquitetura é, no fundo, uma representação construída dos valores, ideais e ambições relativos a uma determinada sociedade, num determinado espaço e tempo.


Na minha perspetiva, classificar a arquitetura enquanto arte é, de certa maneira, redutor: primeiro, porque o entendimento de arte é diminuído, por muitas pessoas, a questões relacionadas com a estética (o que é realmente uma pena..!); segundo, porque legitima uma arquitetura movida pela expressão artística e individual do arquiteto e pela manipulação das formas (como se o edifício se tratasse de uma escultura).

Contudo, isto não é motivo para desanimo; muito pelo contrário! A peculiaridade da arquitetura está no facto de ser uma atividade de vertente artística com funcionalidade efetiva e, por isso, com responsabilidades concretas. É precisamente na tensão entre a arte e a ciência social, entre o egocentrismo inerente à expressão artística e o altruísmo da responsabilidade social, que a arquitetura se posiciona.

Esta peculiaridade é um dos fatores que, pessoalmente, mais me encanta na arquitetura: ao mesmo tempo que possibilita a reflexão e a expressão artística, e a utilização de métodos também eles artísticos, a arquitetura é uma atividade de impacto social efetivo, no quotidiano da pessoas e, consequentemente, de grande responsabilidade para com a sociedade e a cultura. Para além disso, entendo que a arquitetura só ficaria a ganhar caso a sua relevância artística ultrapasse o que é visual e estético; que vá para além da forma do edifícios. Nestes termos, a disciplina da arquitetura poderia contribuir, efetivamente, de uma maneira singular para o mundo da arte, sem colocar em causa a sua funcionalidade e relevância sociocultural.




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