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Arquitetura: O eco intemporal da Humanidade

27 de dez. de 2021
3 min de leitura

No cerne da humanidade, existe uma necessidade profunda de alcançar a imortalidade. Na base da esmagadora maioria das ações humanas reside um medo profundo e inconsciente da morte e da passagem efêmera.

Aquilo que chamamos de cultura é precisamente o antídoto que nós desenvolvemos para conseguirmos lidar com esta nossa condição existencial. A cultura é o alcance - ainda que simbólico - da imortalidade. É, como li algures, um "eco intemporal da nossa existência". O conhecimento, a linguagem, as crenças, os costumes, a arte, a arquitetura, são elementos que compõem o antídoto. Todos eles, como um todo, formam uma imagem cristalizada de uma determinada existência social, numa determinada época e num determinado local.

Os nossos edifícios são, portanto, a expressão construída de uma cultura. São o reflexo da nossa existência no presente e no futuro, no sentido em que, não só nos representam hoje, como projetam para o futuro uma imagem de nós mesmos. Nesta conformidade, a arquitetura é tanto uma construção física e material, como uma construção sociocultural.

O Partenon da Acrópole de Atenas, construído no século V A.C., representa uma obra de referência para a Humanidade. É a expressão construída da cultura da Grécia Clássica, dos seus valores e ideais. pois representa uma civilização, com 26 séculos de existência, através de um edifício em mármore branca que ainda hoje existe no topo de Atenas.

(A Acrópole de Atenas e o Partenon que, ainda hoje, permanecem no topo da cidade de Atenas, na Grécia)


Contudo, através dos livros e, mais recentemente, da Internet, os edifícios têm uma capacidade ainda maior de permanecerem intemporais, mesmo que não existam fisicamente. É evidente que a eliminação da existência física e material de um edifício, e da respetiva experiência espacial, anula uma dimensão fundamental da arquitetura; no entanto, enquanto produto sociocultural, eles alcançam a perenidade - ou, pelo menos, algo próximo disso - através de fotografias, desenhos, textos, etc. Poderemos sempre olhar para a arquitetura de um determinado edifício como conhecimento relativo a uma sociedade que o construiu.

Para além da resposta a uma necessidade e a um problema específicos, o arquiteto tem a grande responsabilidade da representação dos tempos; de compor um retrato fiel de uma cultura e de o projetar no futuro.

Contudo, a arquitetura, o eco da humanidade, constitui, inerentemente, um risco que, a meu ver, deve ser combatido: a perpetuação do status quo. O espaço e as suas formas - a arquitetura na sua existência material - definem efetivamente os limites e os contornos de todas as atividades humanas e sociais. Isto significa que o espaço, simultaneamente, (1) produto social e (2) definidor dos limites desse mesmo paradigma social, facilmente resulta na perpetuação e conservadorismo.

Deste modo, devemos entender a representação dos tempos e a composição do retrato social num contexto de produção crítica, e não num contexto de complacência. Um determinado edifício pode ser a expressão construída de uma mudança social e não é por isso que deixará de ser um retrato fiel de um contexto cultural que, caso constitua uma verdadeira mudança, irá, mais tarde, ele próprio constituir o status quo que necessitará de ser questionado. É neste contexto que considero indispensável a noção da projeção para o futuro do retrato social efetuado pela arquitetura (referida anteriormente). O arquiteto é alguém intrinsecamente otimista: a arquitetura assenta sempre na premissa de constituir uma melhoria do espaço, por mais pequena e insignificante que possa ser; constrói porque acredita sempre que é capaz de melhorar o ambiente construído. Nesta conformidade, ao considerar o futuro de uma representação cultural, o arquiteto fá-lo numa perspetiva de melhorar a realidade social e isso implica a adoção de uma postura crítica. No sentido inverso, a representação cultural que não tem em vista a projeção no futuro, limita-se a uma produção acrítica que nada mais é do que uma perpetuação da condição presente.

Por tudo isto, sabemos - ainda que, muitas das vezes, inconscientemente - que a arquitetura vai muito para além da mera construção física de um abrigo ou de um mero exercício de estética ou organização espacial: é também uma construção mental, intelectual e político-social.


(Pavilhão de Barcelona, Barcelona Espanha, 1929 / Mies Van der Rohe)





 
 
 

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