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"Beauty behind the Madness"

30 de out. de 2021
3 min de leitura

Mas afinal, quem somos nós - arquitetos - para dizer à sociedade o que é belo e o que não é? Quem somos nós para impormos uma noção tão subjetiva e pessoal como a beleza no dia a dia das pessoas? Existe uma noção de beleza transversal e universal? Devíamos, sequer, estar preocupados com isso?

Aqueles que considero serem os melhores arquitetos da história, todos eles já construíram edifícios que (no mínimo) estão longe de serem belos. Apesar de tudo, de uma forma surpreendente - ou talvez não - esses mesmos edifícios constituem grandes obras de arquitetura. Mas, o que é que isto significa no que concerne a relação entre a arquitetura e a beleza?


(Capela Ronchamp, em Ronchamp, França, 1955 | Le Corbusier)


(Department Store Galleria, Gwanggyo Seoul, Coreia do Sul, 2020 | Rem Koolhaas/OMA e Chris van Duijin - muito provavelmente, o edifício mais feio que já vi. Quer isto dizer que nós, portugueses, até tivemos sorte com a Casa da Música..?)



A noção de beleza é normalmente associada à completude, à harmonia, à satisfação e deleite; é convidativa e sedutora. Mas, será que essa noção de beleza cobre todas as suas possibilidades? Longe disso, diria. Não existe, também, uma certa beleza naquilo que é bruto, direto e imponente?; naquilo que nos choca e nos afeta?; naquilo que nos provoca? Um edifício não tem que ser harmonioso, acolhedor ou fácil para ser efetivamente belo. Existem edifícios que materializam precisamente as qualidades opostas e que eu considero, também eles, belos.

Tal como Rem Koolhaas demonstrou ao afirmar que "a beleza pode causar uma falsa sensação de segurança existencial", devemos desconfiar da beleza (pelos menos nos termos em que é geralmente entendida). De uma forma algo subversiva, a beleza é convencional e conservadora, enquanto que, por sua vez, o "estranho" e feio parece ser mais interessante e catalisador.

Não quero com isto dizer que, de modo a ser interessante e inovadora, a arquitetura tenha de construir edifícios feios, perturbadores ou caóticos. O meu argumento é: enquanto sociedade, não devemos querer que a arquitetura se defina pela busca da beleza e que produza exclusivamente edifícios convencionalmente belos. Tal como TheWeeknd (um dos meus artistas favoritos) afirma no nome de um dos seus álbuns, existe uma "Beleza por trás do caos" (Beauty behind the Madness).

E porque razão a beleza deveria ser o propósito da arquitetura? "Porque a beleza transmite-nos completude e felicidade", responderão alguns. Mas, será mesmo assim? Sinceramente, toda esta discussão sobre a beleza aborrece-me… Reconheço a possibilidade de ser defeito meu, mas a beleza, a harmonia e a felicidade sempre foram categorias demasiado conformistas para mim. Porquê querermos algo bonito, belo e que nos deixe felizes, em detrimento de algo que nos provoque, que seja catalisador e que tenha significado? Tal como Slavoj Zizek questionou: " Porquê ser-se feliz quando se pode ser interessante?" (Why be happy when you could be interesting?).

Não é uma questão de ter algo contra a beleza, a harmonia ou felicidade. Apenas entendo que são propósitos que, em última instância, nã0 valem assim tanto a pena. E, como a arquitetura é expressão construída dos valores e ideais de uma sociedade, acredito que é importante continuarmos a refletir sobre a beleza enquanto valor.

A meu ver, um arquiteto não deve refugiar a conceção de um projeto nos limites conformistas da noção convencional de beleza. Em vez disso, deve procurar colocar em causa essa mesma noção de beleza; deve procurar outros propósitos e significados que sejam capazes de catalisar ou, simplesmente, questionar o paradigma.

Uma grande obra de arquitetura não pode ser medida pela beleza do edifício. Tem de ser medida por algo com mais significado como, por exemplo, a sua capacidade de síntese. Isto é, pela sua capacidade de (1) captar, numa ideia/conceito/imagem, uma sociedade de uma determinada época; (2) através da fusão de vários domínios e intenções, e a utilização de várias ferramentas, construir um edifício que materialize essa mesma ideia/conceito/imagem da forma mais fiel e funcional possível. E se isso implicar que um edifício seja bruto, impactante, violento ou incoerente, que assim seja. Se o edifício conseguir, de alguma forma, ser a forma construída do nosso reflexo, a relevância do seu significado sobrepor-se-á, naturalmente, à sua beleza (ou falta dela).

E, afinal de contas, quando reconhecemos significado em alguma coisa que apela intrinsecamente aos nosso valores e ideais, não estamos perante algo belo?





(Maison Latapie, Floirac, França, 1993 | Lacaton et Vassal - na minha opinião, um exemplo de ótima arquitetura que é entendida como uma casa "feia")


 
 
 

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