Do delírio da metrópole para a vitalidade do campo em "Countryside, The Future"- Um problema nosso?

(Capa de Delirious New York : a retroactive manifesto for Manhattan, 1978 | Rem Koolhaas)
No ano de 1978, Rem Koolhaas surge no panorama da arquitetura através da publicação “Nova York Delirante” [New York Delirious]:
"Como escrever manifestos - sobre uma forma de urbanismo para este final de século XX - numa era que não os aprecia? A grande fragilidade dos manifestos é sua intrínseca falta de provas. O problema de Manhattan é o contrário: uma montanha de provas sem um manifesto. Este livro foi concebido como o cruzamento dessas duas considerações: é um manifesto retroativo para Manhattan. Manhattan é a pedra de Roseta do século XX."
Desta publicação resultou um debate sobre a – febril - realidade urbana do século XX em Manhattan, Nova York (o laboratório de uma nova cultura).
Conceitos fundamentais como a cultura da congestão e a grandeza [Bigness] retratam uma metrópole em delírio, movida pelas novas tecnologias, pelo liberalismo e a economia de mercado e pelo crescimento exponencial do domínio privado sob o domínio público. A híper-densidade, a adição e a sobreposição tornam-se os paradigmas da cidade, onde o arranha-céu constitui uma espécie de universo independente, onde cada piso corresponde a um mundo de acontecimentos únicos e entusiasmantes; que desconecta o seu conteúdo da pele do edifício, o programa/performance da aparência. É como se a própria cidade estivesse dentro do arranha-céus (numa só torre existe uma complexa sobreposição de programas: escritórios, restaurantes, ginásios, apartamentos, bibliotecas, salas de espetáculos etc.).
Na época, vivia-se num clima de deslumbramento, fascínio e entusiasmo pela metrópole enquanto berço das oportunidades, onde tudo acontece (todos nós conhecemos Nova York como a cidade que nunca dorme).

(Exposição "Campo, O Futuro" no Museu Guggenheim, 2020 | AMO/Rem Koolhaas/Samir Bantal)
Em 2019, 41 anos depois da publicação de “Nova York Delirante” [New York Delirious], é anunciada uma exposição no Museu Guggenheim de Nova York, para o ano de 2020, chamada “Campo, O Futuro”, cuja curadoria ficaria a cargo de Rem Koolhaas.
"Esta exposição não está relacionada de forma alguma com a arte, nem com a arquitetura. É uma exposição sobre sociabilidade, antropologia e política.", afirmou o arquiteto holandês numa entrevista. Torna-se clara - mais uma vez - a sua obsessão jornalística, enquanto catalisadora de novos modos de entender e fazer arquitetura.
Segundo o arquiteto, a sua editora/equipa de investigação AMO já há algum tempo estava a estudar o campo e as zonas rurais, com o intuito de desbloquear novos modos de projetar no futuro.
O que desencadeou o interesse de Koolhaas e a sua equipa foi um estudo publicado no ano de 2007 que evidenciava dados, de certa forma, ignorados, ainda que verdadeiramente preocupantes (afinal não é esta a “especialidade” de Koolhaas?): em 2007 cerca de 50% da população vive nas metrópoles que, por sua vez, correspondem apenas a 2% do território terrestre. De modo a ser ainda mais alarmante, projeta-se que, em 2050, 70% da população vai habitar nas cidades, enquanto que a restante população vai ocupar a esmagadora maioria do planeta.
De modo a suplementar a exposição, Rem Koolhaas, e a sua equipa de investigação AMO, publicam o livro de .bolso "Campo: Uma Reportagem" [Countryside: A Report], que contém 18 histórias sobre como agir hoje no campo. Logo na contra-capa, Koolhaas afirma que "O que estas histórias têm todas em comum é o facto de acontecerem no campo e, portanto, nunca ouvimos falar delas... Elas fazem com que o campo se pareça, subitamente, mais futurista que qualquer cidade grande ou "inteligente", um mundo cheio de drama e potencial..."
A introdução, denominada “Domínio Ignorado”, alerta precisamente para os dados alarmantes dos estudos referidos acima e reflete sobre as dinâmicas que existiram, e existem, entre a cidade e o campo:
“As últimas duas décadas – ou talvez todo o período a partir de 1991 – tem-se caracterizado por uma expetativa complacente de que um tipo de civilização – metropolitana, orientada pelo capital, agnóstica, ocidental – permaneceria como modelo de desenvolvimento global, possivelmente para sempre. Entretanto, o “modelo” ignorou desenvolvimentos drásticos no Médio Oriente, África, Ásia, China, e tem-se mantido alheio às mudanças climáticas e ao ambiente.”
“Em 2020, destacam-se duas tarefas flagrantes. A inevitabilidade da Urbanização Total deve ser questionada, e o campo deve ser redescoberto como um local de reassentamento, de vitalidade; uma presença humana entusiástica deve reanimá-lo com uma nova imaginação.”
“Atualmente, o discurso ligado ao campo está polarizado entre tentativas de o manter “tal como ele é” e de o mudar “totalmente.”

(Aldeia do Piódão, em Arganil, Portugal)
Inevitavelmente, esta reflexão remete-nos para a desertificação do Interior e a ocupação do Litoral de Portugal: um problema há muito identificado, cujas medidas se revelam cada vez mais ineficazes.
A evidência é clara: o Interior do país representa uma população pobre e envelhecida com pouquíssimas oportunidades. E acrescenta o facto de que os – poucos - jovens que lá vivem pretendem sair da sua terra o mais rápido possível.
No Litoral, cerca de ¼ do território português, vive 60% da população portuguesa e estima-se que a densidade populacional no Litoral é 372 vezes maior do que no Interior do país. Quanto à idade, apenas 17,6% da população com menos de 25 anos vive no Interior.
Penso que é também evidente que, nos últimos anos, existiu uma alteração de mentalidade que começou a ver a cidade como um contentor de poluição, ruído e trânsito, altamente prejudicial para a saúde (mental e física) das pessoas. Nesta conformidade, parte da população já revela a intenção de viver num ambiente rural nas periferias da cidade, de modo a poder desfrutar das qualidades do campo e da distância certa para com a cidade (suficientemente longe, mas suficientemente perto).
Com a crise pandémica dos últimos anos, a congestão que caracteriza as cidades (e que tanto deslumbrou nas últimas décadas) tornou-se numa verdadeira fragilidade: com o vírus, a densidade populacional causou uma propagação exponencial da covid-19 (o que levou governos a aplicar medidas extremas, tais como isolamentos). Enquanto as zonas urbanas viviam esta tragédia, a população do interior viveu numa normalidade praticamente intacta: isoladas nos vastos campos, cuidavam dos seus animais e cultivavam e, ao fim de semana, acenavam ao vizinho, numa das raras interações sociais que tinham numa semana.
Se até agora, o trabalho de Koolhaas sempre se manteve como uma realidade distante aos olhos de Portugal e da sua identidade arquitetónica, a verdade é que, desta vez, o arquiteto holandês foca-se numa questão que está a ser diariamente discutida no nosso país.
A discrepância entre Litoral e Interior irá, num futuro muito próximo, exigir respostas imediatas à sociedade, principalmente à arquitetura:
- a deslocação populacional de volta ao Interior, que exigiria a recuperação de infra-estruturas/edifícios ou a construção de novos aglomerados urbanos;
- a gestão do território verde, que exigiria reflexão sobre a questão de manter/incluir/destruir espaços naturais;
- a distribuição de oportunidades e recursos, que exigiria a construção de novos edifícios que são fulcrais para o funcionamento de uma comunidade;
- a integração das novas tecnologias na agricultura;
O problema está lançado e a investigação foi iniciada. Foram identificados modos inovadores de atuar e projetar no campo e nas zonas rurais dos mais variados cantos do mundo.
A questão neste momento é: o que é que vamos fazer efetivamente sobre isso no futuro?
Bibliografia
-KOOLHAAS, Rem (1978) - Delirious New York : a retroactive manifesto for Manhattan - New York: Monacelli Press
-KOOLHAAS, Rem (2020) - Countryside: A Report - Guggenheim Taschen
- dados da desertificação do interior:



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