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A "máquina de viver" de Rem Koolhaas

4 de nov. de 2021
2 min de leitura

Todos os arquitetos têm certos projetos que, de uma maneira ou outra, causaram impacto na sua formação/aprendizagem em arquitetura e, no meu caso, um desses projetos foi a Maison a Bordeaux, de Rem Koolhaas e o seu atelier OMA.



(Maison a Bordeaux, Bordéus França 1998 | Rem Koolhaas/OMA)


A casa, que foi construída no ano de 1998 em Bordéus, França, foi uma encomenda peculiar: um dos membros da família sofria de deficiências de mobilidade (um acidente de carro fizera com que o pai ficasse paralisado da cintura para baixo) e necessitava de uma casa que estivesse adaptada a essa condição. "Ao contrário do que seria expectável, quero uma casa complexa porque a casa definirá o meu mundo", afirmou, na altura, o cliente. As exigências faziam antever um projeto inovador: afinal, como é que a arquitetura (Rem Koolhaas e o OMA, neste caso em concreto) poderia projetar uma casa que constituísse, efetivamente, os limites do mundo de alguém? No fundo, a casa seria uma extensão da própria pessoa. O vazio que o acidente deixara na vida do cliente, teria de ser complementado pela casa e a sua arquitetura.

Na célebre publicação de 1923 Vers une Architecture, Le Corbusier definiu a casa moderna como uma "máquina de viver", numa clara posição a favor do funcionalismo que constituiu a base do movimento moderno. Nesta perspetiva, a casa e os seus espaços deviam rejeitar o ornamento e acessório e, acima de tudo, funcionar bem naquilo a que se propunham.

Neste projeto em concreto, Koolhaas - um crítico acérrimo das ambições modernistas da utopia social - viu-se confrontado com uma das premissas-base da arquitetura moderna: A Maison a Bordeaux teria de ser efetivamente uma "máquina de viver" corbusiana, altamente funcional, devido à condição do cliente. Contudo, Koolhaas (e)levou o conceito do funcionalismo da casa a outro patamar: se, no modernismo, o funcionalismo ditava uma rigidez e prescrição dos espaços (os espaços eram cuidadosamente desenhados para uma função ou atividade específicas), o funcionalismo na Maison a Bordeaux define-se pela transformação constante e redefinição espacial da casa.

A habitação é constituída por 3 pisos conectados por uma plataforma hidráulica (do género de um elevador) que transportava o cliente da cozinha, para a sala, para o quarto, etc. Contudo, esta plataforma não era um mero elevador. Era o próprio escritório do cliente que percorria verticalmente a casa, sempre acompanhado por uma enorme estante cheia de livros.


(Escritório-elevador da Maison a Bordeaux, Bordéus França 1998 | Rem Koolhaas/OMA)


Para além da própria forma da casa e os materiais utilizados constituírem uma clara rutura com a arquitetura moderna, a mais interessante inovação é espacial e programática. Este projeto utilizou as máximas funcionalistas da arquitetura moderna para abrir novos caminhos e possibilidades para a arquitetura; reinterpretou o conceito de "funcionalismo" e de "máquina" associados à arquitetura modernista dos anos 20-60 e partiu numa direção inversa. E tudo isto com a introdução de uma divisão-elevador que funciona como elemento transformador dos espaços da casa.

No documentário REM (sobre a carreira do arquiteto Rem Koolhaas, realizado pelo seu filho Tomas Koolhaas), a filha do cliente (que entretanto, faleceu) afirmou o seguinte: "O processo de design do edifício foi excitante. Foi mais a criação de uma forma de viver, do que propriamente uma casa."


(Escritório-elevador da Maison a Bordeaux, Bordéus França 1998 | Rem Koolhaas/OMA)









 
 
 

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