Mas, que arte?
Na atualidade, surpreende que o entendimento de arte aplicado à arquitetura continue tão arcaico: apesar dos avanços no mundo da arte, a arquitetura, na generalidade, continua a basear as suas possibilidades artísticas no ângulo reto ou curvo; nas fachadas de formas simples ou esquisitas; na escolha dos materiais; na fotogenia do edifício - tudo relacionado ao que é visual, relativo às características materiais e à experiência espacial do edifício.

(Le Fountain, 1917 | Marcel Duchamp, sentado a fumar, junto da sua obra)
Enquanto isso, há pouco mais de 100 anos atrás, a arte redefiniu os próprios limites e modos de produzir obras de arte. Essa mudança de paradigma foi impulsionada, de forma determinante, pelo conceito artístico "ready-made", de Marcel Duchamp, que abriu caminho a novas interpretações sobre o objeto enquanto obra de arte.
Ao colocar um objeto banal do quotidiano - neste caso em concreto, um urinol - num museu, Duchamp evidencia que objetos que, à partida, não são encarados nem produzidos como obras de arte, podem vir a sê-lo, dependendo do contexto em que forem produzidos e inseridos. O simples ato de assinar e expor um urinol foi capaz de revolucionar definitivamente o mundo da arte: eliminou a representação e o significado relacionados com o objeto e a sua função quotidiana, e substituiu-as por uma ideia autorreflexiva: "Afinal de contas, isto é arte? Como se define uma obra de arte?."
Neste caso, a obra de arte é a reflexão em si, é a colocação da pergunta. Não é o objeto, nem as características da sua forma (no caso dos ready-made, os objetos não têm sequer um autor, são objetos fabricados em massa, todos os dias, e que servem apenas para funcionar). A arte não está no produto final (que na arte conceptual pode nem existir e ser, simplesmente, ar), mas sim no modo de produção e na ideia/reflexão sobre o que pode ser uma obra de arte.
Como foi evidenciado por José Capela, em "Arquitetura pela Arquitetura", é evidente que a arquitetura manteve "uma ideia de artisticidade insolitamente alheia a fenómenos como, por exemplo, os readymade que Marcel Duchamp começou a produzir há 100 anos".
Neste sentido, pedem-se novos modos de produzir arte que não estejam necessariamente relacionados com as características materiais do edifício e as suas formas, mas sim com o modo de as produzir e com o processo que dá origem ao objeto final; pede-se uma vertente artística da arquitetura que, tal como os ready-made de Duchamp, seja capaz de questionar e redefinir o campo de possibilidades da disciplina.
Evidentemente, a aplicação do conceito de ready-made na arquitetura não pode ser direta e plena (basta pensar que a arquitetura necessita de vender edifícios e gerar lucro, o que, por si só, impossibilita a quantidade de experimentalismo que verificamos na arte).
Na sua arte, Duchamp conseguiu desvanecer completamente a função e a praticidade do objeto, de modo a substituí-lo por uma ideia ou reflexão. Por sua vez, a arquitetura: (1) tem de produzir formas materiais e construir edifícios que existam no mundo real; (2) não consegue abandonar simplesmente a sua funcionalidade, pois tem de ser capaz de, no mínimo, proteger o ser humano das intempéries (como diria Siza Vieira) e de possibilitar a prática de algumas atividades quotidianas no seu interior.
Como tinha revelado na publicação anterior - "Arquitetura: Arte ou Ciência Social?" -, considero que a arquitetura tem uma capacidade muito peculiar de produzir arte e, por isso mesmo, exige entendimentos e processos também eles muito peculiares. Isto é, não pode produzir obras de arte como o restante universo artístico, dadas as suas características.
O que resulta desta reflexão não é uma resposta, mas sim uma questão que merece ser colocada: "Como é que a arquitetura consegue produzir formas que sejam relevantes artisticamente e que vão além do entendimento de artisticidade que teima em perdurar na arquitetura?"
Deste modo, talvez abandone a minha relutância em afirmar que a arquitetura deve procurar ser arte...Contudo, enquanto a arquitetura reduzir a sua ideia de artisticidade à forma dos edifícios, prefiro não o fazer.
Bibliografia
CAPELA, José (2015) - "Arquitetura pela Arquitetura" - Revista Punkto



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