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O Realismo Poético de Peter Zumthor

28 de set. de 2021
3 min de leitura

Peter Zumthor, arquiteto contemporâneo suíço, foi o vencedor do prestigiado prémio Pritzker 2009. A sua arquitetura, cujas influências remontam à sua própria infância, em que acompanhava o pai na sua profissão de artesanato de mobiliário, destaca-se pela abordagem singular ao objeto arquitetónico, ao lugar, aos materiais, à luz, aos sentidos e à perceção corporal humana, Mesmo a sua imagem enquanto arquiteto é muito própria: um homem que desenha fechado no sue atelier, na Suíça, afastado dos holofotes dos media, recusando, assim, a atenção mediática normalmente associada aos starchitects (arquitetos-estrela), como Frank Gehry, Koolhaas ou Zaha Hadid,

Zumthor direciona, de forma direta, a sua preocupação para o objeto arquitetónico -o edifício - e para a sua materialidade. Neste sentido, a execução do projeto e os respetivos processos construtivos assumem uma posição determinante na arquitetura. Na sua perspetiva, "no contexto do objeto arquitetónico, os materiais podem adquirir qualidades poéticas se estabelecerem as devidas relações formais e de sentido no próprio objeto, pois os materiais, por si só, não são poéticos." Esta afirmação permite-nos estabelecer uma relação com o seu conceito de "todo-particularidade", onde o arquiteto explica que o edifício corresponde a um todo que, por sua vez, é composto por inúmeras particularidades que, por si só, não têm sentido, nem qualidades próprias. Contudo, quando organizadas e relacionadas corretamente entre si, estas particularidades formam um sentido ou um significado geral, específico aquele objeto, construído especificamente naquele lugar.

Os sentidos - o tato, a visão, o odor ou a audição - correspondem aos mecanismos de que o ser humano dispõe para apreender os espaços que habita no seu quotidiano, assumindo assim uma papel preponderante aquando a realização do projeto: "A arquitetura tem o seu próprio âmbito existencial. Dado que mantém uma relação especialmente corporal com a vida, na minha opinião, no início, não é, nem mensagem, nem signo, mas sim uma cobertura e um contentor da vida que nele acontece, um recetáculo sensível ao ritmo dos passos no solo, à concentração do trabalho, ao sossego do sonho."

Os espaços projetados por Zumthor - minimalistas, contidos e lúcidos - caracterizam-se pela sua atmosfera enigmática e pelo seu espírito, onde a preocupação pela sua construção efetiva, dá origem a composições complexas de materialidade e sensações.

Da sua obra construída, destacam-se as Termas de Vals, na Suíça, a Capela de campo Bruder Klaus, na Alemanha, ou ainda, a Villa Devon, em Inglaterra.

(Termas de Vals, Vals, Suiça 1996 | Peter Zumthor)

(Capela de campo Bruder Klaus, Mechernich, Alemanha 2007 | Peter Zumthor)

(Villa Devon, Chivelstone, Inglaterra 2020 | Peter Zumthor)


Este tipo de arquitetura, ao contrário da arquitetura de Koolhaas, ou Gehry, exerceu (e ainda exerce) muitas influências no contexto português. Por valorizar questões como a lucidez e o pragmatismo, a singularidade do lugar, a especificidade dos materiais ou a execução da obra, a abordagem de Zumthor constitui uma fonte de inspiração para os arquitetos portugueses. Opõe-se a entendimentos de arquitetura já aqui discutidos, como o entendimento de que a arquitetura é mais sobre as ideias de edifícios, do que os edifícios em si; ou ainda, o entendimento de que a arquitetura deve resolver problemas emergentes da sociedade.

Para o arquiteto suíço, a arquitetura não tem de tentar resolver problemas da sociedade (postura que parte da arquitetura contemporânea adota), nem deve ser generalizada. Zumthor acredita que a arquitetura deve-se manter isolada, sempre fiel à sua tradição construtiva e que, acima de tudo, continue a ser um episódio extraordinário no quotidiano das pessoas.

É, no fundo, uma arquitetura que se encerra na sua própria intemporalidade; que recusa ser experiência corrente e que se assume como exceção; é uma arquitetura que sonha com a imortalidade, num mundo repleto de efemeridades; é uma arquitetura com a capacidade de transformar pragmatismo e realismo em versos de poesia.



Bibliografia


ZUMTHOR, Peter (1998) - Thinking Architecture - BIRKHAUSER - PUBLISHERS FOR ARCHITECTURE

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