Parc de la Villette e a cultura de congestão de Koolhaas
"Onde não há nada, tudo é possível.
Onde há arquitetura, nada (mais) é possível"
-Rem Koolhaas, "Imagining Nothingness"
Rem Koolhaas encarou o concurso do Parque La Vilette, de 1983, como a versão europeia da "cultura da congestão", teorizada através de Manhattan, na sua aclamada publicação "Delirious New York: A retroactive manifesto for Manhattan".
De modo a perceber o conteúdo revolucionário da proposta, é necessário, primeiramente, compreender a obra teórica sobre as metrópoles e a respetiva "cultura da congestão".

(Manhattan vista do ceú, Nova Iorque)
Teorizada essencialmente a partir de Nova Iorque, mais concretamente, Manhattan, a "cultura de congestão" é sobre o potencial dos valores da hiper-densidade e diversidade, do espetáculo e da condensação, que caracterizam as metrópoles modernas que. nas últimas décadas do século XX, foram impulsionadas pelo capitalismo e a economia de mercado, e confrontadas com fenómenos como a globalização, o aumento exponencial da população, o aumento do setor privado e as crescentes expetativas da vida social.
Com o avançar dos tempos, a metrópole e a arquitetura tornaram-se cada vez mais incompatíveis. Se no espírito social utópico do modernismo dos anos 20-60, a arquitetura e o urbanismo pretendiam desenhar cada canto da cidade com a profunda convicção de que a arquitetura era responsável pelo bem e pelo mal da sociedade. a partir do pós-modernismo, a cidade torna-se numa incubadora de potencial social desprovida de qualquer determinismo arquitetónico. Isto é, a cidade torna-se num organismo imprevisível, completamente impossível de projetar e desenhar; forma um espetáculo caótico de eventos em constante mutação.
Até este ponto, não havia grandes distinções entre arquitetura e urbanismo para além da escala de intervenção, pois ambos eram encarados pelo arquiteto como um exercício de desenho. A partir deste momento, são dois campos de atuação completamente distintos: a arquitetura define e, portanto, limita e exclui hipóteses (ao desenhar o edifício e os espaços, a arquitetura está a definir o que alguma coisa é e, consequentemente, o que não pode ser); por sua vez, o urbanismo abre um leque de hipóteses e, portanto, foca-se na criação de potencial (o urbanismo cria condições para que isto aconteça num espaço, mas também aquilo e, noutra uma altura, outra coisa completamente diferente). Nesta conformidade, a arquitetura explora o potencial urbano; vai "roubando"/limitando, em cada tomada de decisão, aquilo que o urbanismo se encarrega de dar/possibilitar.
No contexto metropolitano, a forma arquitetónica divorcia-se do que se passa no interior dos edifícios (como Koolhaas afirmou, "a genialidade de Manhattan é a simplicidade deste divórcio entre aparência e performance: mantém a ilusão da arquitetura, enquanto se entrega completamente às necessidades da metrópole"). Aqui se faz notar a disrupção com a arquitetura moderna dos anos 20-60, movida por máximas como "a forma segue a função" que vinculavam a aparência do edifício e o que se passava lá dentro (ou, simplesmente, o seu programa).
E quando o desejo passa pela imprevisibilidade, pela infinidade de hipóteses, pela diversidade e condensação sociais, a arquitetura torna-se numa espécie de exercício insuportável de tirania e qualquer tentativa de determinismo da sua parte revelar-se-á absolutamente inútil. Em 1994, numa entrevista dada no programa "Charlie Rose", Rem Koolhaas afirmou que esta nova geração de arquitetos não encara a cidade como um exercício de design ou como algo que tem de ser desenhado de raiz, mas sim como um potencial acumulado que exige análise, interpretação e identificação de oportunidades de intervenção. Não querem definir, mas sim possibilitar ou desbloquear.
Os arranha-céus de Manhattan são o expoente máximo desta cultura da congestão: edifícios verticais, com alturas desmesuradas, que não são nada mais que pequenas cidades dentro de um só edifício. Estes edifícios funcionam como um contentor de vida e de condensação social. Dentro deles existem restaurantes, escritórios, ginásios, discotecas, cafés, bibliotecas, habitações e toda uma série de atividades impossíveis de prever e controlar. A acumulação dos pisos do arranha-céus resulta numa condensação socio-cultural que forma um "espetáculo vertical onde, basicamente, tudo é possível". Os arranha-céus são uma representação do potencial cultural metropolitano que inesgotável e que se vai acumulando em direção ao céu.
Neste sentido, a cidade deixa de ser um todo coerente e controlado, e passa a ser um conjunto de pequenos (enormes) mundos contidos dentro dos arranha-céus e, portanto, completamente isolados e independentes em relação aos outros. Tal como Koolhaas afirmou no seu manifesto "Grandeza ou o problema do grande":
"A grandeza (o tamanho dos arranha-céus) transforma a cidade de um somatório de certezas para uma acumulação de mistérios"

(Parc de la Villette, Paris, França 1983 | Maquete da proposta de Rem Koolhaas/OMA)
O parque La Vilette, em Paris (uma cidade que Koolhaas caracteriza como refém da sua própria grandeza e identidade), foi um projeto comissionado pelo Estado francês que pretendia construir o grande parque do século XXI. Seria o símbolo da modernidade e da inovação, uma representação dos valores democráticos e socialistas de França (e também da Europa).
A cidade de Paris estava a crescer e o Parc de la Villette iria situar-se na antiga periferia. O projeto do parque pretendia estruturar uma nova zona urbana de elevada importância para a metrópole parisiense.
Rem Koolhaas formulou a sua proposta baseando-se na sua teoria da "cultura da congestão": o Parc de la Villette era uma excelente oportunidade para a Europa construir a sua própria versão do Manhattanismo. No fundo, o parque seria, tal como um arranha-céus, um contentor de vida ou a condensação de potencial social inesgotável. A diferença estaria na disposição dos eventos: enquanto que, em Manhattan, os eventos organizam-se verticalmente nos pisos de um arranha céus de 150 metros de altura, no Parc de la Villette, os eventos iriam organizar-se por faixas horizontais (como se o arranha céus tivesse caído e o seu programa tivesse espalhado pelo chão do parque).
O parque seria formado pelas seguintes camadas/conjuntos:
1- faixas horizontais de programa/eventos/atividades (parques temáticos, zonas de desporto, espetáculos, etc)
2- grelha de pontos e confetis (pequenos elementos arquitetónicos não-estruturais como quiosques, pontos de churrascos, bilheteiras, parques infantis, etc.)
3- acessos e circulação (uma grande avenida que atravessava perpendicularmente todas as faixas horizontais e outras ruas mais pequenas que ligam certos programas e eventos)
4- unidades de maior dimensão (programa exigido pelo projeto ou que já lá existia, como um museu da ciência, o jardim circular, a zona dos concertos, etc.)

(Parc de la Villette, Paris, França 1983 | Maquete da proposta de Rem Koolhaas/OMA)
Mantendo a ideia convencional de um parque (um espaço maioritariamente verde constituído por árvores), Koolhaas exclui qualquer determinismo característico do desenho arquitetónico. Os parques europeus foram, até então, projetos essencialmente pitorescos, algo que Koolhaas via como uma incompatibilidade para as exigências sociais da "cultura da congestão". Em vez de desenhar arquitetura, o arquiteto direciona a sua preocupação para a organização do programa e dos eventos que podem decorrer no parque, nomeadamente a riqueza resultante da sua contaminação e sobreposição. A intenção não foi de desenhar um parque, mas sim de criar um sistema sequencial de programas e eventos que funcione como uma espécie de método de formação de um parque. Tal como o OMA caracterizou: " O que La Villete sugeriu foi a pura exploração da condição metropolitana: densidade sem arquitetura, uma cultura de congestão "invisível". "
Nesta conformidade, o Parque La Villette seria uma versão ainda mais extrema da congestão de Manhattan: se, nos arranha-céus, o programa e os eventos estavam contidos dentro de uma forma arquitetónica (ainda que desvinculados, a forma do edifício enclausurava os acontecimentos que nele decorriam), no parque La Villette o projeto seria puramente programático, sem qualquer tipo de assinatura arquitetónica. Isto é, Rem Koolhaas propôs o mínimo possível e concebível de arquitetura. Ridiculariza a compulsão arquitetónica de desenhar e construir; transforma a densidade construtiva de Manhattan em densidade exclusivamente programática.
Foi como se Manhattan, finalmente livre da insuportável presença da arquitetura, se tivesse deitado ao lado do centro de Paris.

(Parc de la Villette, Paris, França 1983 | Diagrama da proposta de Rem Koolhaas/OMA)



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