Peter Eisenman: Significado "indicidível" na arquitetura
No início da sua carreira, Peter Eisenman seguiu a filosofia do estruturalismo. Aplicado à arquitetura, as preocupações do estruturalismo estavam direcionadas para a exploração de uma estrutura que define as regras da linguagem da arquitetura. Isto é, existe uma estrutura de formas puras, que nada tem a ver com a cultura ou o ser humano. Questões como conforto e requisitos dos clientes são ignorados em prol da obtenção de uma arquitetura autónoma e "pura".
Eisenman não estava interessado na típica relação de significação da arquitetura que define que cada elemento arquitetónico, tal como uma coluna, uma parede, ou até mesmo um edifício, correspondem a um significado diretamente. Isto é, olhamos para a coluna e deduzimos o seu significado. Esta relação direta entre o signo/símbolo (uma coluna, por exemplo) e o seu significado é denominada de 1 para 1. Em vez disso, Eisenman estava interessado na forma "pura" da coluna, por exemplo, não no que ela significava (por exemplo, uma coluna jónica é associada à graça e ao feminino, enquanto que uma coluna dórica é associada ao sóbrio e ao masculino). Processos meramente geométricos como a subtração, divisão, fragmentação, deslocação, torções ou deslocação de eixos ortogonais e diagonais, constituem as "regras do jogo" da arquitetura do estruturalismo,
Contudo, nos anos de 1970-80, surge um novo paradigma: o surgimento do desconstrutivismo, cujo "pai" foi Jacques Derrida. Esta corrente filosófica, que também assentava essencialmente na linguagem, determinava que o significado das coisas é relativo a um tempo e a uma cultura e, portanto, não existe uma relação de 1 para 1. As coisas, por si só, não têm um significado estrutural. Por exemplo, se procurarmos a definição de "forma" no dicionário, notamos que o seu significado assenta em outras palavras (igualmente relativas) que, por sua vez, dependem de outras palavras, etc. Estamos perante um ciclo redundante de dependência e ambiguidade de significados que não nos leva a nenhum ponto de base. Nesta perspetiva, o significado denomina-se de "indicidível".
Desde cedo que o desconstrutivismo estabeleceu uma relação muito próxima com a arquitetura, como comprova a colaboração entre Eisenman e Derrida, na elaboração de uma proposta para o famoso Parc de la Villete de Paris. Neste sentido, notamos uma alteração de paradigma que fez com que Eisenman repensasse a sua forma de fazer arquitetura: para ele, a arquitetura tem de ter significado "indicidível", ou seja, tem de ter significado que não seja extraído diretamente dos elementos arquitetónicos. Os elementos ou símbolos históricos não devem mais ser usados como transmissores de significado.
O melhor exemplo de um projeto de Eisenman (que o próprio arquiteto classifica como bem sucedido, na sua intenção de não ser traduzível em significado) é o Memorial do Holocausto em Berlim.

(Memorial do Holocausto, Berlim Alemanha, 2005 | Peter Eisenman)
Este projeto não se adivinhava nada fácil para o arquiteto, especialmente para um arquiteto preocupado com a eliminação do processo de significação direto.
Por razões óbvias, este projeto teve uma dimensão política enorme: os judeus não queriam que fosse construído e os antissemitistas também não. Contudo, a entidade governamental queria que o projeto fosse construído, e que, para além disso, usasse símbolos antigos como estrelas judias (em jeito de homenagem), Como é óbvio, Eisenman insurgiu-se contra essa intenção desde início e estabeleceu que só faria o projeto caso tivesse liberdade para abandonar o significado direto da arquitetura.
Como podemos ver nas imagens, o projeto consiste num mar de blocos de betão (2700 sólidos) com várias escalas, num terreno com oscilações topográficas.
Como Eisenman afirmou, "é um domínio de completa inexistência". Não se assemelha em nada com a envolvente urbana, é uma experiência completamente diferente em que nos sentimos totalmente desajustados em relação ao ambiente construído, "tal como foi a experiência dos judeus nos campos de concentração".
Contudo, estes blocos de betão não invocam nenhum significado diretamente relacionado com os judeus, o holocausto ou a Alemanha (não têm símbolos, não têm nada escrito, não representam caixões ou câmaras, etc.) e, nesse sentido, é considerado um sucesso. Aliás, a grande prova disso, segundo o arquiteto, foi a divulgação de um cartaz de propaganda política italiana que usou uma imagem do projeto, mas que foi forçado a adicionar uma estrela judia em cima da imagem, para que as pessoas que vissem o cartaz conseguissem identificar o que estavam realmente a ver: o Memorial do Holocausto.

(Memorial do Holocausto, Berlim Alemanha, 2005 | Peter Eisenman)
Outro exemplo da prática de Eisenman é a Cidade da Cultura da Galiza, onde o arquiteto procurou construir edifícios que fossem uma extensão rochosa da topografia do território.
Este projeto consiste num complexo arquitetónico com museus, espaços de performances e uma biblioteca. Contudo, a intenção do arquiteto foi de desassociar completamente a forma do edifício e a sua função e significado: quem olha para os edifícios, não consegue reconhecer: primeiro, os limites entre chão e edifício; segundo, se é uma biblioteca ou um pavilhão desportivo, por exemplo. A única referência à intervenção humana é feita através da malha ortogonal que define as linhas que marcam o chão e o topo dos edifícios.
Como podemos verificar, não existe nenhuma relação direta entre a forma da arquitetura e o seu significado. Olhando para os edifícios, não conseguimos extrair diretamente nenhum sentido ou informação relativa à funcionalidade do edifício. Estamos, assim, perante um projeto em que o significado da arquitetura é "indicidível".

(Vista aérea da Cidade da Cultura da Galiza, Santiago Compostela Espanha, 1999 | Eisenman Architects)



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