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Prelúdio.

22 de ago. de 2021
3 min de leitura

(Maison à Bordeaux, OMA | fotografia de David Alf)



Desde cedo na minha formação académica que o meu fascínio pela arquitetura está mais direcionado para o domínio teórico, do que propriamente para os edifícios construídos. Não quero com isto dizer que não tenho qualquer interesse pelos edifícios, muito pelo contrário. Aliás, acredito que, em última instância, o objetivo da arquitetura é a sua construção. Contudo, o que me fascina é o potencial da relação que pode existir entre o domínio teórico e os edifícios. Idealmente, esta relação não é definida por uma supremacia de um dos domínios em relação ao outro (desenvolver uma base teórica desvalorizando a sua materialização ou, no sentido inverso, desenvolver uma prática arquitectónica sem uma base teórica e crítica), mas sim de uma interação bi-direcional e complementar, em que o corpo teórico alimenta a prática profissional e vice-versa.


Uma das principais razões deste meu interesse reside no facto de os meus pais me terem incutido o hábito de ler, o que desenvolveu uma certa apetência para a escrita (algo que parece estar incrivelmente "fora de moda" nas gerações mais novas). Para além disso, as minhas preferências literárias inseriram-se desde cedo numa esfera maioritariamente filosófica, intelectual e política. Neste seguimento, durante grande parte do meu percurso académico, atribuí um certo ênfase à dimensão intelectual e reflexiva do arquiteto (o que me levou a optar, nesta fase final do curso, por concluir o mestrado com a realização de uma dissertação escrita sobre a dimensão ideológica da arquitetura) Por este conjunto de razões, uma das minhas maiores ambições é a publicação de uma obra com influência semelhante à de Vers Une Architecture de Corbusier, Delirious New York ou S,M,L,XL de Rem Koolhaas, ou ainda Architecture and Disjunction de Bernard Tschumi. Em todos estes casos, existe uma relação inequívoca entre a obra escrita e a obra construída dos arquitetos, como se constituíssem um todo, que evidencia o potencial de aliar uma prática profissional a uma reflexão crítica sobre a disciplina da arquitetura e da própria sociedade. E qual é a melhor forma de induzir um pensamento crítico? Escrevendo, acredito eu.

Como diria J.B. Peterson, pensar e escrever são praticamente a mesma coisa, quando feitos corretamente. Ao contrário do que se poderá pensar, escrever não se trata simplesmente de passar para o papel os pensamentos formados a priori na nossa mente. Muito para além disso, o ato de escrever contribui para a própria formação do pensamento e permite colocar questões a partir de diferentes perspetivas, clarificando assim a nossa ideia e a nossa posição crítica em relação a algum problema. Neste sentido, este meu objetivo de produzir e publicar reflexões escritas passa por incutir uma postura crítica capaz de refletir sobre a arquitetura e a sua posição na realidade sociocultural. Deste modo, as reflexões críticas poderão servir de fundação a uma prática profissional que consiga construir edifícios que, simultaneamente, sirvam as pessoas e que redefinam as convenções e os limites da própria arquitetura.

Sem seguir qualquer tipo de guião ou estrutura definidos a priori, as publicações tratarão questões que eu considere pertinentes, interessantes e que, acima de tudo, possam acrescentar à construção de uma narrativa que responda à pergunta "Afinal, o que é a arquitetura?".

Sem descorar a importância das questões em concreto a serem abordadas, e das respetivas respostas, este projeto procura dar início a uma busca incessante de caráter pessoal, caracterizando-se, assim, mais como uma questão permanentemente em aberto, do que propriamente uma busca por uma resposta em concreto (como se diz muitas vezes: o importante é a jornada, não o destino)

De uma macro-perspetiva, espera-se que o corpo global das publicações, consiga transmitir uma imagem clara e em movimento, definida pelos elementos pontuais e independentes correspondentes às reflexões.

Para além das publicações, existirá também um fórum onde serão abertas discussões (quer por mim, quer pelos membros registados no Wix), que possibilitará a troca de impressões, comentários e a colocação de perguntas sobre qualquer tema que seja considerado pertinente.


Devo admitir que já me questionei - bastante, até - sobre o porquê de publicar as minhas ideias. A verdade é que, para além de estar simplesmente a seguir a minha intuição, faço-o por uma razão essencialmente egoísta: ao assumir um projeto desta natureza, estou automaticamente a gerar uma obrigação extra que me vai ajudar a manter o compromisso de escrever regularmente (reprovável, eu sei...)

Por fim, espero que este projeto seja tão desafiante e entusiasmante como antevejo neste momento e que consiga, de alguma forma, gerar valor àqueles que dedicarem parte do seu tempo a ler o que tenho para dizer.


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