"Red is not a color"

(Parc de la Villette, Paris, França 1987 | Bernard Tschumi - um dos múltiplos follies vermelhos distribuídos pelo parque)
" Na história da cultura, a palavra "arquitetura" está normalmente associada a edifícios de grande beleza ou magnitude. A arquitetura é frequentemente apresentada como o mero conhecimento da forma. Apesar disso, poderíamos afirmar que a arquitetura é, antes de mais, uma forma de conhecimento, tal como a matemática, filosofia, ou arte. Uma das suas mais importantes funções é a criação de ideias e conceitos sobre o mundo em que vivemos. A arquitetura permite-nos apreender o mundo, e é igualmente sobre colocar questões e fornecer respostas a problemas de uso ou atividade social.
Todavia, a inescapável materialidade da arquitetura é o que a distingue da filosofia, da matemática, ou literatura. Na sua essência, a arquitetura envolve a materialização de conceitos ou ideias."
- Bernard Tschumi em "Red is not a color"
Tal como Bernard Tschumi, entendo a arquitetura como um modo de pensar, ver e questionar o mundo à nossa volta. A arquitetura não corresponde a uma atividade somente concentrada na linguagem, nos estilos dos edifícios ou na experiência do espaço, mas também a uma forma de pensar ou questionar a realidade político-social.
Por esta razão, a arquitetura não constitui propriamente um corpo de conhecimento exclusivo à disciplina, autónomo e cumulativo. Em vez disso, consiste num modo de produzir ideias e conhecimento, relativos ao contexto político-social que a envolve, efetuado através de um processo de importação/exportação com outras áreas da sociedade, como as artes, por exemplo.
Enquanto área de conhecimento, a arquitetura lida com ideias e conceitos que é capaz de gerar - sobre a cultura, economia, política, etc. -, com a especificidade da necessidade da materialização física desses mesmos conceitos. As ideias e os conceitos da arquitetura existem, portanto, para além do objeto físico arquitetónico, da sua existência material e da experiência do espaço.
" A arquitetura não é algo pré-definido. Nós, arquitetos, pensamos sempre que definimos o espaço através das paredes, mas "definir" também significa dar uma definição ou dar um significado. Enquanto arquitetos, temos de definir e redefinir constantemente o que é arquitetura"
- Bernard Tschumi
É evidente a preocupação de Tschumi com a dimensão conceptual da arquitetura: definir o espaço através das formas implica também definir conceitos e ideias que habitam o espaço mental e não o físico. Trata-se de representar e transmitir interpretações das estruturas políticas e sociais através de um edifício que existe e que pode ser experienciado através das sensações.
Neste sentido, a arquitetura é, na sua génese, disjuntiva porque lida com o espaço conceptual e material enquanto duas dimensões independentes e distintas, mas que se relacionam no cerne da disciplina.
A dimensão física da arquitetura - os estilos, as formas, os materiais, as cores, dimensões, etc. - cai, deste modo, do pedestal em que foi colocada ao longo da história, não no sentido em que perde importância (afinal, é através de um processo de materialização meticuloso - obsessivo, diria - que o arquiteto consegue transformar ideias em arquitetura), mas num sentido em que é apenas um dos termos de uma equação composta também pela dimensão conceptual ou pelos eventos e programa.
Por sua vez, o espaço físico constitui (1) os limites e os contornos de todas as atividades sociais, ao mesmo tempo que é (2) uma produção cultural. Isto significa que a arquitetura, enquanto representação do status quo político, económico e social, é essencialmente perpetuadora e limitativa. Para Tschumi, o potencial da arquitetura enquanto acelerador de mudança social reside no programa e nos eventos que decorrem no espaço e que representam uma transgressão ao estabelecido e institucional. É precisamente nesta disjunção entre o espaço e os eventos que nele decorrem (a negação do vínculo da máxima modernista "forma segue função") que podemos encontrar uma nova arquitetura.
Para que este tipo de arquitetura surta efeito, é necessário que o arquiteto adote uma postura crítica permanente, em que produza mais questões do que respostas. Uma disciplina constantemente em renovação e redefinição exige um processo crítico contínuo que seja capaz de impulsionar novos modos de pensar e produzir arquitetura. É necessário um arquiteto que acredite na capacidade da arquitetura em acelerar alterações sociais (que difere da convicção de que pode criá-las totalmente ou provocá-las sozinha através da forma e dos espaço).
Como Tschumi avisou uma vez, no inicio de uma conferência: "Quem já tiver as respostas todas, abandone a sala de imediato, por favor."



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