Uma arquitetura pós-covid19?

(Project 13, Studio Wills + Architects, Singapura 2020 - casa/atelier de arquitetura)
Tudo corre normalmente... Até que surge uma crise pandémica a nível global e, subitamente, toda a família é obrigada, pelas entidades governamentais, a viver debaixo do mesmo teto todo o dia - literalmente.
De um dia para outro, a casa deixa de ser suficiente para as nossas exigências: reparamos que, afinal, a nossa sala de estar recebe muito pouca luz solar (antes só costumávamos estar na sala depois de jantar, para ver televisão); para além disso, notamos que a sala de estar é pouco funcional, adapta-se pouco a novas tarefas ou atividades; o quarto torna-se incrivelmente pequeno. Para quem vive em apartamentos, uma pequena varanda seria o suficiente; com as aulas e reuniões por Zoom, reparamos que, afinal, a nossa casa não tem espaço para que todos nós possamos trabalhar. “Dava jeito uma secretária no quarto” - pensamos nós; de repente, percebemos que separar o espaço de trabalho é indispensável; o quarto, que antes só servia para dormir, torna-se numa sala de aula e de estudo, cujos livros e apontamentos estão espalhados pelo chão;
A crise pandémica, que vivemos nestes últimos anos, serviu para evidenciar o vínculo entre as exigências do nosso quotidiano e a arquitetura dos espaços em que vivemos.
A verdade é que, atualmente, a vida de uma pessoa normal determina que estejamos cerca de 12 horas em casa, sendo que 7-8 dessas mesmas horas estamos a dormir. Portanto, podemos afirmar que a casa tem, apenas, 5-7 horas de "uso". (É evidente que nos fins de semana as circunstâncias mudam, mas a maioria das pessoas também aproveita essa altura para ir passear com a família ou com os amigos, etc.)
Sem querer desvalorizar o quão determinante pode ser um pequeno almoço (mesmo que seja daqueles de 5 minutos) numa cozinha iluminada por luz solar, logo pela manhã, a verdade é que, em termos práticos, a casa não é utilizada durante um grande período do dia.
Com as circunstâncias do isolamento/confinamento, o espaço da casa determina efetivamente os limites da nossa experiência diária, e, apesar de a situação, eventualmente, voltar ao normal, as debilidades da casa foram expostas como nunca. A casa foi alvo de uma análise prática e minuciosa (ainda que por obrigação) efetuada pelos seus habitantes.
Todos nós temos a noção de que, por exemplo, o teletrabalho é uma hipótese que tem sido considerada nos últimos anos e que o covid-19 só serviu para acelerar o inevitável processo da sua implementação efetiva.
Esta circunstância implicaria uma série de alterações nos espaços da casa: a criação de um espaço destinado ao trabalho, como um atelier ou escritório, onde se teria de refletir sobre a questão da privacidade, para o caso de estarem 2 ou 3 pessoas a trabalhar ao mesmo tempo; esse espaço teria também que ser iluminado por luz natural, (no mínimo) para não afetar a própria produtividade e estado de espírito das pessoas; a inclusão ou aumento de espaços exteriores, como varandas ou terraços, que possibilitem uma zona de estar ao ar-livre fora da casa (ainda que se esteja efetivamente dentro).
E desengane-se quem acha que uma medida como a implementação do teletrabalho só implicaria arranjar espaço para colocar uma secretária no quarto. Só esta alteração poderia ter um impacto inimaginável na escala urbana: uma pessoa, que tenha de trabalhar numa grande cidade, opta normalmente por uma habitação nessa mesma cidade (ou muito perto) porque fazer uma viagem, por exemplo, de 1h30m para o trabalho, duas vezes por dia, não é algo sustentável. Pela procura e pelo acesso próximo a mais oportunidades e programas, as habitações dos centros urbanos das grandes cidades têm custos muito elevados. Caso o teletrabalho fosse implementado efetivamente, essa mesma pessoa só teria que se deslocar às instalações do emprego, por exemplo, 1 vez por semana. Nesse contexto, já não é necessário viver na cidade ou na periferia imediata porque uma viagem de 1h30m, uma de ida e outra de volta, por semana, é perfeitamente sustentável. Deste modo, podemos assistir a uma alteração profunda no paradigma dos centros urbanos e na escolha do local para se viver. Caso assistamos a um fenómeno desta natureza, novos edifícios, relacionados com o funcionamento de uma comunidade, terão também de ser construídos.
Por outro lado, locais de trabalho que, por exemplo, albergavam 1500 trabalhadores, irão necessitar da presença física diária de apenas 500. Fará sentido manter a escala dos edifícios? Talvez não. Ou então sim, mas agora com novos usos e funcionalidades.
Como podemos verificar, uma série de questões ligadas diretamente à arquitetura surgiram, e vão, com certeza, surgir, por causa da crise pandémica que vivemos (quer esta tenha alterado as circunstâncias, quer tenha apenas acelerado processos eminentes).
Todas estas alterações, aliadas à mudança geral de paradigma que tem ocorrido na sociedade (relativa aos benefícios da cidade vs. benefícios do campo e à questão ambiental), evidenciam que podemos estar muito próximos de uma alteração significativa.



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