Villa Farnsworth: a casa icónica que funcionou melhor como museu
A Villa Farnsworth, de Mies van der Rohe, é um ícone da história da arquitetura. A casa, construída entre 1945-51, em Illinois, Estados Unidos, é considerada um símbolo do movimento moderno, precisamente por representar o expoente máximo dos princípios modernistas do século XX, defendidos por Mies.
A partir de 2003, a habitação deixou de ser propriedade privada e passou a fazer parte do domínio público, sendo que, atualmente, funciona como um museu que pode ser visitado, através da reserva e compra antecipada de bilhetes online.
Este edifício é a materialização dos princípios relacionados com a velha máxima miesiana "menos é mais": a pureza da forma e da cor branca, a planta livre, o uso de pilotis, a elevação da casa em relação ao solo, a fachada em vidro, a relação direta com a paisagem exterior, etc.





(Villa Farnsworth, Illinois Chicago, Estados Unidos da América, 1951 | Mies van der Rohe)
Siza Vieira, numa entrevista que teve lugar no interior da própria Villa Farnsworth, em 2018, revelou que visitar aquela casa foi a "realização de um sonho antigo". Para o arquiteto português, a casa é "a absoluta perfeição. É um daqueles interiores em que podemos apontar com o dedo para um ponto no teto, seguir a linha, descer, subir outra vez...Tudo é contínuo, correto e está nas perfeitas proporções. É uma casa que precisa de ser tratada com cuidado e carinho."
Contudo, nem tudo foi positivo neste projeto: a cliente da casa, a Mrs. Farnsworth, entrou várias vezes em conflito com Mies van der Rohe e chegou mesmo a recorrer ao tribunal (anos mais tarde, o tribunal viria a dar razão ao arquiteto, argumentando que a cliente acompanhou e aprovou o projeto, sem levantar quaisquer problemas)
A principal queixa da cliente baseava-se na falta de conforto da casa: a falta de privacidade do quarto em relação à zona pública da casa, a transparência das fachadas em vidro, ou até mesmo - imagine-se só! - o facto de as pessoas mais curiosas invadirem o terreno privado para conseguir espreitar a famosa "casa de vidro". O facto de a casa ser despojada de decoração e elementos pessoais, como mobília, fotografias ou quadros, também foi motivo de queixa para Mrs. Farnsworth, que queria pendurar umas fotos de família mas não tinha paredes para o fazer. Para além disso, também existiam outros problemas, como as recorrentes inundações do terreno ou o facto de, à noite, a casa funcionar como uma lâmpada no escuro e, consequentemente, atrair centenas de insetos (o que obrigou a cliente a instalar umas telas anti-mosquitos que Mies, com certeza, reprovaria...) Essencialmente, Mrs. Farnsworth queixava-se do facto de aquela habitação não ter a capacidade de constituir um lar para ela, no verdadeiro sentido da palavra, pois, como ela própria afirmou, sentia-se como "um animal enjaulado".
Sem querer dar razão a nenhuma das partes, uma coisa é certa: este projeto de arquitetura não conseguiu responder às necessidades daquele cliente em específico. Prova disso mesmo, é o facto de funcionar melhor, atualmente, como um museu, do que anteriormente como uma casa. Portanto, nesse sentido podemos afirmar que a arquitetura falhou.
Não obstante este facto, o estatuto de ícone que esta casa adquiriu no panorama arquitetónico é revelador da inegável qualidade e da inovação deste projeto: o absoluto controlo do espaço e das proporções, a uniformidade do espaço aberto e da luz, os panos de vidro que realçam as cores da paisagem natural que envolve o edifício. Este caso em concreto, é uma das mais belas manifestações humanas do espírito que se vivia na época.
Em suma, estamos perante um projeto que constituiu um manifesto no início dos anos 50 e que marcou uma era, cujo preço a pagar foi a satisfação do próprio cliente. Este exemplo coloca um conjunto de questões pertinentes: até que ponto vale a pena impor a intenção do arquiteto? Será correto fazê-lo? Não deveria o arquiteto encarar as necessidades do cliente em primeiro lugar? Que legitimidade tem a arquitetura para impor modos de viver e habitar? Seria possível fazer algo do género hoje em dia?
O meu bom senso diz-me que o arquiteto não deve ter como princípio a imposição da sua perspetiva. Afinal de contas, a arquitetura é para ser usada pelas pessoas que a habitam e, se não conseguir suportar o quotidiano dessas mesmas pessoas, não cumpre a sua função mais elementar (como Campo Baeza afirmou: "O Homem é quem e para quem cria a arquitetura).
Por outro lado, também reconheço que a história precisa de um ou dois exemplos que vão "longe demais", que testam os limites da disciplina e os paradigmas estabelecidos, de modo a inspirar e a provocar novos modos de fazer e entender a arquitetura. E foi precisamente nesse contexto que esta casa foi projetada: a Villa Farnsworth é um projeto que teve de sacrificar o cumprimento da sua função elementar, de modo a conseguir mudar o rumo da arquitetura no século XX. Recorda-nos que, por vezes, a ideia da arquitetura materializada num edifício é mais importante que a sua existência prática e funcional.
Inegável é o facto de, ainda hoje, esta obra de arquitetura influenciar a prática de milhares de arquitetos. Olhando a partir da atualidade, podemos afirmar que o tempo acabou por dar razão a Mies van der Rohe. No entanto, também não devemos deixar que a genialidade deste projeto nos desvie a atenção do facto de, em termos estritamente práticos, ter falhado totalmente.
-CAMPO BAEZA, Alberto (2008) - A Ideia Construída - trad. de Anabela Costa e Silva, editora Caleidoscópio
Entrevista de Siza Vieira, na Villa Farnsworth, em 2018:



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