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"White is the new black!" p.2

21 de set. de 2021
3 min de leitura

02.


Ilse Crawford, no prefácio "Material Man" da publicação "Vicent Van Duysen, Complete Works", afirmou: "visitei mais de mil interiores e apercebi-me que a maioria dos que ficam ótimos nas fotografias, eram frios e bidimensionais na realidade, enquanto que os poucos que eram aprazíveis- táteis, sólidos, aconchegantes e intrigantes - raramente apelavam a uma estética modernista." O que esta afirmação torna evidente é a discrepância que existe entre o que é esteticamente belo e o que nós efetivamente desejamos. E o que é que é desejável num espaço interior de uma habitação, por exemplo? Que seja - no mínimo, diria - um espaço acolhedor e com vida, repleto de episódios e presença humana, um espaço que consiga relacionar-se connosco.

Existe uma questão que eu coloco muitas vezes, a mim mesmo, sempre que observo imagens como a que está abaixo: "Sim, o quarto é deslumbrante. Mas, e se eu tivesse de viver nesse quarto o resto da minha vida? Iria gostar?" Na esmagadora maioria dos casos, a minha resposta é não (admito que possa ser uma opinião meramente pessoal, mas acredito que seja uma opinião partilhada por um grande número de pessoas). A meu ver, o interior, apesar de ser esteticamente belo, não estabelece qualquer tipo de relação com a presença humana. O corpo humano, uma vez inserido num espaço destas características, não passaria de um corpo estranho e deslocado.


(Quarto de uma habitação projetada pelo atelier Fran Silvestre Arquitectos)



Apontando a um tipo de arquitetura que é rara, praticada pelo arquiteto contemporâneo Van Duysen, Ilse Crawford chegou "à conclusão de que a arquitetura, independentemente dos estilos, causa-nos impacto enquanto seres emocionais ao envolver-se fisicamente connosco, através dos nossos sentidos."

Esta conclusão remete-nos imediatamente para a arquitetura do arquiteto suíço Peter Zumthor, vencedor do Prémio Pritzker de 2009, cuja preocupação está muito direcionada para o lugar, espaço e luz, para os sentidos e para a materialidade, tudo isto numa relação com o corpo humano, que experiencia os espaços que habita diariamente,

Van Duysen, mantendo a simplicidade, o minimalismo e a funcionalidade modernistas, estabelece uma complexa rede de relações entre o material, a execução e a experiência dos nossos sentidos. Tal como Crawford afirmou, "os materiais que usamos criam atmosferas e carregam mensagens escondidas, que em grande parte determinam o espírito de um espaço e da nossa relação com este."


(BS Residence, Zwevegem, Bélgica 2009 | Van Duysen)


Esta reflexão não consiste, de modo algum, num caso contra a cor branca. Pelo contrário, existem excelentes obras de arquitetura cujo branco assume um papel preponderante. O que pretendo transmitir é que a utilização do branco tem de ser considerada muito para lá do que é esteticamente belo. Existem outras dimensões, como os sentidos e a perceção humana, que têm de ser consideradas aquando a realização de um edifício. A esteticização da arquitetura e a sua redução a uma imagem estão associadas, grande parte das vezes, a um custo bastante elevado: a desconexão entre o espaço e o ser humano. Porque, afinal de contas, "Nós somos parte da natureza, não aparte dela, e apesar da arquitetura que organiza o espaço estética e filosoficamente parecer bela, isso, por si só, não cria espaços que conectem."





Bibliografia



-VAN DUYSEN, Vicent; PIOVANO, Alberto (2010) - Vicent Van Duysen Complete Works - ed. New York : Thames & Hudson


-CRAWFORD, Ilse (2010) - "Material Man" em Vicent Van Duysen Complete Works - ed. New York : Thames & Hudson,

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