"É uma arquitetura portuguesa, com certeza!"

(Casa da Música, Porto 2005 | OMA/Rem Koolhaas)
No ano de 1999, no âmbito da eleição da cidade do Porto enquanto capital europeia da cultura 2001, é realizado um concurso para a construção de um complexo de espetáculos no centro histórico portuense, mais concretamente, na Rotunda da Boavista. A proposta do OMA, de Rem Koolhaas, foi eleita por um júri (do qual fazia parte o arquiteto português Siza Vieira) como a proposta vencedora da Casa da Música do Porto.
Nessa altura, o começo do novo milénio representava uma viragem determinante não só para a sociedade, como também para a arquitetura. Koolhaas já havia anunciado o ponto de viragem da arquitetura com a publicação do seu manifesto retroativo Nova York Delirante de 1978; 17 anos mais tarde, publica S,M,L,XL, uma monografia/guião caótica de 1376 páginas sobre os primeiros 20 anos da prática do OMA. Na introdução desta publicação, Koolhaas afirmava: “Ainda assim, S,M,L,XL é a procura por uma “outra” arquitetura, sabendo que a arquitetura é como uma bola de chumbo presa à perna de um prisioneiro: para escapar, ele tem de se ver livre do peso que carrega, mas tudo o que ele consegue fazer é raspar lascas com uma colher de chá.”
Neste sentido, a arquitetura internacional vivia um momento de euforia, essencialmente deslumbrada com as oportunidades oferecidas pela globalização, pela economia de mercado e pela internet, que prometiam alterar para sempre a sociedade e, consequentemente, a arquitetura. “A globalização destabiliza e redefine a maneira como a arquitetura é produzida e como produz. (...). Enfrentando este Armageddon – o violento nascimento de uma nova arquitetura – a profissão está num profundo estado de negação.”, afirmava Koolhaas num dos seus ensaios escritos presente em S,M,L,XL, denominado "Globalização".
É neste contexto que a Casa da Música surge. Enquanto que argumentava sobre a “Cidade Genérica” – a cidade do nosso futuro, sem identidade e sem história -, Rem Koolhaas projetava a Casa da Música para a cidade do Porto, que era “uma cidade intocada”, segundo o próprio, repleta de história e identidade, e onde Fernando Távora, Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura representavam a aclamada Escola do Porto.
Em “O futuro”, subcapítulo de “Arquitectura portuguesa 2000-2005: um guia temporário”, Ana Vaz Milheiro destaca precisamente esse espírito que antevia um “momento «refundador»”: “Com a Casa da Música construída no Porto, Rem Koolhaas mexe no centro nevrálgico da tradição arquitectónica portuguesa recente, fazendo pousar um “objecto alienígena” na cidade onde trabalhavam Fernando Távora, Álvaro Siza e Eduardo Souto Moura. A “Casa da Música traz um lastro “internacional” que a mobilidade que caracteriza as últimas gerações de arquitectos já fazia pressentir. A arquitectura feita em Portugal chega assim ao século XXI através de um arquitecto estrangeiro e de uma obra polémica.”
Nesta conformidade, a Casa da Música de Rem Koolhaas simbolizou a chegada da vanguarda radical internacional ao território da Escola do Porto e dos seus mestres, que representam a típica arquitetura portuguesa (que já tinha sido reconhecida internacionalmente em 1992, com a atribuição do prémio Pritzker a Siza Vieira) O projeto da Casa da Música marca um dos extremos que iriam definir o "espaço de manobra" do futuro da arquitetura portuguesa, sendo que o outro, representado pelo estádio AXA em Braga, de Eduardo Souto de Moura, correspondia ao "modernismo vernacular que vingou entre a cultura portuguesa."

(Casa das Histórias Paula Rego, Cascais 2008 | Eduardo Souto de Moura)
Não obstante o fundamentado entusiasmo, a verdade é que, passados 10 anos, em “Sem sombra de Koolhaas – Os críticos também falham”, Ana Vaz Milheiro reconhece que “Da influência efetiva de Koolhaas na arquitectura portuguesa, nem sombra.”
Não deixa de ser surpreendente que, apesar da Casa da Música (um dos melhores edifícios de Koolhaas segundo inúmeros críticos) ter constituído uma janela de oportunidade para a arquitetura portuguesa, na realidade, a vanguarda koolhaasiana está para Portugal, tal como a Casa da Música está para a cidade do Porto: um objeto alienígena.
As principais razões para este fenómeno de resistência foram evidenciadas pela autora: “devem encontrar-se nos elementos que distinguem a produção urbanística e arquitectónica do OMA e de Rem Koolhaas, da arquitectura portuguesa e da gestão que esta última tem procurado fazer do capital acumulado que continua a exibir como forte marca de uma autonomia cultural. É por insistir num traço distintivo e recusar o anonimato, que a arquitectura portuguesa tem conseguido sobreviver entre a produção europeia”.
Se, por um lado, a construção da Casa da Música teve um impacto praticamente nulo na arquitetura portuguesa, por outro, foi determinante para a confirmação da identidade portuguesa. O facto de o projeto de Koolhaas constituir ainda hoje, 16 anos depois, um mundo por explorar, evidencia precisamente a resistência e a autonomia portuguesas (que viriam a ser, mais uma vez, reconhecidas a nível mundial com a atribuição do prémio Pritzker 2011 a Eduardo Souto de Moura)
Portugal, por variadas razões (desde a sua localização na ponta da Europa, até ao facto de ser um país com uma economia pobre e uma dinâmica atrasada comparativamente com as potências europeias), sempre foi uma espécie de país aparte do contexto internacional, com contingências e peculiaridades que o separam do resto da Europa. Tal situação verifica-se na história da arquitetura: enquanto que países europeus como a França, Itália, Inglaterra não têm propriamente uma história nacional, mas sim uma história da arquitetura de movimentos e tendências dominantes na Europa, Portugal tem, de facto, uma história nacional da arquitectura portuguesa.
Este capital acumulado, referido por Ana Vaz Milheiro, muito ligado à história, acima de tudo portuguesa, ao território e ao contexto, tem constituído a base de uma continuidade, na minha perspetiva, altamente radical. Precisamente por rejeitar a rutura e refugiar-se na sua própria história e saber acumulados, a arquitetura portuguesa adota uma posição que se define como altamente radical perante uma realidade de vanguarda internacional. A adoção da rutura é radical quando pensada num contexto em que a “nova” vanguarda é comparada com a anterior. Contudo, a continuidade e o acumular de capital podem ser também entendidos como uma estratégia radical, no sentido daquilo que é distante do normal e esperado, quando inserido num macro-contexto histórico europeu, em que os países seguem normalmente as vanguardas.
Esta continuidade radical já foi referida várias vezes por arquitetos portugueses, nomeadamente Eduardo Souto Moura. O arquiteto português, em março deste ano, numa conversa promovida pela Fundação Serralves[1], afirmou algo que tem vindo a afirmar durante toda a sua carreira: que a arquitetura é sempre a mesma coisa. Mudam-se os tempos, as tecnologias, as técnicas construtivas e os meios disponíveis, mas os problemas da arquitetura são sempre os mesmos. Desde o classicismo grego do Parténon, ao modernismo de Mies van der Rohe, até aos dias de hoje, ao neoplasticismo e modernismo vernaculares de Souto Moura, a arquitetura enfrenta os mesmos problemas elementares de luz, espaço, forma, proporção, lugar, etc.
Nesta lógica, podemos afirmar que a arquitetura portuguesa se destaca no contexto internacional precisamente por manter o seu foco exclusivamente direcionado para a arquitetura em si, dando pouca atenção aos movimentos de vanguarda que vão surgindo, apenas permitindo a penetração - muito criteriosa - de determinados discursos.
Comparando a afirmação de Souto Moura, de que a arquitetura e os seus problemas são sempre os mesmos, desde o Parténon até aos dias de hoje, e a afirmação de Koolhaas, de que a arquitetura após a globalização e a economia de mercado nunca mais seria a mesma, considero a afirmação do arquiteto português tão ou mais radical que a afirmação do arquiteto holandês.
O realismo jornalístico e a incessante procura de inovar através de problemas emergentes da sociedade (que caracterizam a prática de Koolhaas e do OMA) parecem constituir hoje em dia uma atitude menos radical comparativamente ao foco praticamente impenetrável na essência da arquitetura e nos seus problemas elementares, e à inovação sustentada por um capital acumulado de saber histórico (que constituem a imagem da arquitetura portuguesa)
Num fenómeno de resistência, de certa forma, paradoxal, somos vanguardistas precisamente porque resistimos à vanguarda, mantendo assim a nossa identidade enquanto arquitetura portuguesa: uma arquitetura regida pela contenção, pelo pragmatismo e minimalismo, pelo uso de materiais característicos do território, com consideração pelo lugar e pelo contexto.
Tal como Eduardo Souto de Moura afirmou, "A principal contribuição da arquitetura portuguesa ao mundo é ser arquitetura, não tem nenhuma especificidade. Há um ditado espanhol que diz: 'Yo no creo en las brujas mas que las hay las hay'. Eu digo, eu não sei o que é arquitetura portuguesa, ou Escola do Porto; não sei e nem me interessa. Mas as pessoas interessam-se e todos os dias pedem, portanto passa-se algo, é uma constatação.” E assim seguimos o nosso caminho, fazendo muito com o pouco que temos (ainda que por obrigação ou por engenho), enquanto que o mundo se deslumbra e exclama:
"É uma arquitetura portuguesa, com certeza!"
[1] “Conversas com Serralves | A arquitetura evolui com a espécie? A espécie condiciona a arquitetura?” em: https://www.youtube.com/watch?v=C5y8IKhbRME&t=1512s&ab_channel=fundacaoserralves
Bibliografia
- KOOLHAAS, Rem; MAU, Bruce (1995) - S, M, L, XL - The Monacelli Press
- KOOLHAAS, Rem (1994) - Delirious New York : a retroactive manifesto for Manhattan - New York: Monacelli Press
- MILHEIRO, Ana Vaz (2005) – “O futuro” em Arquitectura portuguesa 2000-2005: um guia temporário- revista 2G Dossier – Portugal 2000-2005
- MILHEIRO, Ana Vaz (2014) – “Sem sombra de Koolhaas: Os críticos também falham” em Koolhaas Tangram – editora Circo de Ideias
- Entrevista de Eduardo Souto de Moura ao jornal DN (2017). Visitar em:
- Entrevista de Eduardo Souto de Moura ao Archdaily (2019). Visitar em:



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